Zacarias
Sobre

Um aspecto importante da antiga organização da Bíblia hebraica chamada TaNaK é que as doze obras proféticas que vão de Oseias a Malaquias, às vezes chamadas de Profetas Menores, foram elaboradas como um único livro chamado Os Doze. Zacarias é o décimo primeiro livro dos Doze.
Zacarias se passa depois do retorno dos exilados da Babilônia a Jerusalém. O livro de Esdras (Ed 5:1-2) diz que Zacarias e Ageu desafiaram e motivaram o povo a reconstruir o templo e buscar o cumprimento das promessas de Deus. Há muito tempo, o profeta Jeremias disse que o exílio de Israel duraria 70 anos (Jr 25:1; Jr 29:10) e que, em seguida, Deus restauraria sua presença em um novo templo. Esse seria o momento em que Deus traria seu reino e o governo do messias sobre todas as nações (Jr 30-33). As datas no início deste livro nos informam que os 70 anos estavam quase no fim, mas a vida na terra era difícil, e parecia que nenhuma dessas esperanças seria cumprida. O livro de Zacarias oferece uma explicação sobre o que deu errado.
O livro tem uma estrutura literária bastante clara. Há uma introdução que define o tom de um grande conjunto de visões oníricas de Zacarias nos capítulos 1-6. Os sonhos são concluídos nos capítulos 7-8, sendo depois acompanhados de dois novos conjuntos de poesia e profecia nos capítulos 9–11 e 12–14. Vamos nos aprofundar e ver como tudo funciona.
Zacarias 1:1-6: um desafio ao arrependimento
Zacarias inicia seu livro convocando sua geração a retornar a Deus e a não repetir o comportamento de seus ancestrais, que se rebelaram e ignoraram os profetas anteriores. Foi essa rebelião que os levou ao exílio. A resposta do povo a Zacarias foi adequada, pois eles se arrependeram e se humilharam diante de Deus — ou, pelo menos, era isso que parecia.
Zacarias 1:7-6:15: visões oníricas sobre o exílio e a reconstrução
A próxima seção do livro de Zacarias é um conjunto de oito visões que o profeta teve. Prepare-se porque estes textos estão cheios de imagens extraordinárias e estranhas, bem parecidas com os nossos sonhos. A ideia de que Deus se comunica com as pessoas por meio de sonhos simbólicos é antiga e remonta a Gênesis. Os sonhos de Jacó em Gênesis 28, de José em Gênesis 37 e de faraó em Gênesis 41 deram significado aos eventos atuais ou ofereceram uma janela para o futuro.
Os sonhos de Zacarias foram organizados em uma estrutura simétrica muito interessante. A primeira e a última visões (Zc 1:8-17; Zc 6:1-8) são sobre quatro cavaleiros, que são como guardas florestais patrulhando o mundo em nome de Deus. Elas representam a vigilância atenta de Deus sobre as nações e revelam que o mundo está em paz (Zc 1:11; Zc 6:8). Nos dias de Zacarias, Deus levantou a Pérsia para conquistar a Babilônia e trazer relativa paz. Surge então a pergunta: se os 70 anos do exílio de Israel estão quase completos e existe paz, não seria agora o momento do reino messiânico em Jerusalém? Deus responde dizendo que cumprirá essas promessas, mas deixa a questão do tempo estranhamente sem resposta.

A segunda e a sétima visões (Zc 1:18-21; Zc 5:5-11) são combinadas como reflexões sobre o pecado passado de Israel que levou ao exílio. A segunda visão é sobre quatro chifres que simbolizam as nações que atacaram e dispersaram Israel. Assim como a Assíria e a Babilônia, esses impérios foram dispersos por um grupo de ferreiros, uma imagem da Pérsia. O sétimo sonho correspondente é sobre uma mulher em uma cesta. Somos informados de que ela é um símbolo dos séculos de rebelião contra a aliança de Israel, sendo imediatamente levada para a Babilônia por outras mulheres com asas de cegonha (muito estranho!).
A terceira e sexta visões (Zc 2:1-13; Zc 5:1-4) são combinadas, pois ambas se concentram na reconstrução de uma nova Jerusalém. O terceiro sonho mostra um homem medindo a cidade. É uma imagem da promessa de Deus de que Jerusalém será reconstruída e se tornará um farol para as nações que se unirão ao povo de Deus em adoração. Na sexta visão, um rolo sobrevoa a nova Jerusalém punindo ladrões e mentirosos, transmitindo a ideia de que a nova Jerusalém é um lugar purificado do pecado pelas Escrituras.
A quarta e quinta visões (Zc 3:1-10; Zc 4:1-14) estão no centro da seção dos sonhos. Essas visões tratam dos dois líderes principais entre os exilados que retornaram: Josué, o sumo sacerdote, e Zorobabel, um descendente real de Davi. Josué estava simbolicamente vestindo o pecado de Israel sob a forma de roupas sujas, mas no quarto sonho elas são tiradas, e ele recebe roupas novas e limpas e um turbante como símbolo da graça de Deus. Um anjo diz a Josué que, se ele permanecer fiel a Deus, ele liderará seu povo e se tornará um símbolo do futuro rei messiânico.
A quinta visão é de duas oliveiras que fornecem óleo para uma elaborada lâmpada de ouro. A lâmpada é um símbolo do olhar atento de Deus sobre seu povo, enquanto as duas árvores representam os líderes ungidos, Josué e Zorobabel, que conduzem a reconstrução do templo. Deus diz, no entanto, que o sucesso não virá ao novo templo se for apenas o resultado de manobras políticas; em vez disso, esses dois homens devem depender da obra do Espírito de Deus (Zc 4:6).
Os sonhos concluem com uma breve visão adicional de Zacarias em Zacarias 6:9-15. Esta visão retoma os temas da quarta e quinta visões centrais. Josué, o sacerdote, recebe uma coroa e é apresentado como um símbolo do futuro messias, que também será um sacerdote no reino de Deus. No entanto, Zacarias diz que tudo isso só se cumprirá se a geração atual for fiel a Deus e obedecer aos termos da aliança. Juntas, essas três visões enfatizam como a vinda do reino messiânico depende de que esta geração se torne fiel a Deus.
Zacarias 7-8: convite para participar do reino de Deus
Isso leva à conclusão das visões do sonho com outro desafio em Zacarias 7-8. Um grupo de israelitas surge, e há quase 70 anos lamenta a destruição do antigo templo. Eles perguntam: "Devemos parar de lamentar? O reino de Deus está chegando em breve?" Em resposta, Zacarias novamente lembra como seus ancestrais rejeitaram o chamado de Deus por meio dos profetas, o que os levou ao exílio (Zc 7:4-14). Ele repete este antigo desafio profético no capítulo 8. Esta geração só verá o reino messiânico se buscarem a justiça e a paz e permanecerem fiéis à aliança. Em outras palavras, Zacarias inverte a pergunta e questiona: "Vocês querem se tornar pessoas que estão prontas para receber e participar do reino vindouro de Deus?"
A pergunta fica em aberto, já que o povo não responde e o livro simplesmente prossegue.
Zacarias 9-14: imagens do reino messiânico
As duas seções finais (Zc 9-11; Zc 12-14) são muito diferentes dos oito primeiros capítulos. Cada uma delas é uma colagem caleidoscópica de poemas e imagens sobre o futuro reino messiânico. A primeira (cap. 9-11) descreve a vinda de um humilde rei messiânico montado em um jumento na nova Jerusalém para estabelecer o reino de Deus sobre as nações. O rei é então simbolizado como um pastor sobre o rebanho de Israel. Ele é rejeitado por seu próprio povo e por seus líderes, que também são simbolizados como pastores. Como uma forma de discipliná-los, Deus entrega Israel a esses líderes corruptos. Isso então levanta a pergunta: a rejeição de Israel ao seu rei-pastor durará para sempre?

A seção final (cap. 12-14) responde com um claro não. Trata-se de outro mosaico de poemas e imagens sobre o futuro reino messiânico. Com imagens muito semelhantes à poesia de Joel e Ezequiel, esses capítulos retratam a nova Jerusalém como o lugar onde a justiça de Deus finalmente confrontará e derrotará o mal entre as nações. No entanto, Deus também confrontará a rebelião de seu próprio povo. Ele derramará seu Espírito sobre eles, para que se arrependam e lamentem o fato de terem rejeitado seu pastor messiânico. No capítulo 14, o livro se encerra com a nova Jerusalém como o centro de congregação de todas as nações. A cidade se torna um novo jardim do Éden, com um rio de água viva que flui do templo para restaurar toda a Criação.
E é aí que o livro termina. Zacarias nos deixa refletindo sobre a conexão entre os capítulos 1-8 e 9-14. A ideia é que o reino vindouro, descrito na segunda parte do livro, só se realizará se o povo de Deus permanecer fiel à aliança, conforme evidenciado na primeira parte do livro.
Ler o livro de Zacarias é uma experiência e tanto. Essas visões e poemas estão repletos de imagens surpreendentes, e não seguem um fluxo linear de pensamento. Essa é, na verdade, parte da questão. Eles funcionam como a história ou nossas próprias vidas, que nem sempre se encaixam em padrões organizados e ordenados. Os profetas nos oferecem vislumbres da mão de Deus em ação, guiando a história em direção a seu propósito. Assim, em última análise, Zacarias nos convida a olhar além do caos e esperar pela vinda do reino de Deus, que deve motivar a fidelidade no momento presente. Esse é o desafio que Zacarias oferece a todas as gerações do povo de Deus.

