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Esdras e Neemias

Sobre

Esdras e Neemias
8:37
Panoramas do Antigo Testamento
Esdras e Neemias

Na maioria das Bíblias modernas, Esdras-Neemias são dois livros separados, mas essa divisão aconteceu muito tempo depois de terem sido escritos. Originalmente, ela era uma obra unificada escrita por um único autor que viveu muito tempo depois da invasão de Jerusalém e do exílio pelos babilônios (2Rs 24-25). Esdras–Neemias retoma a narrativa cerca de cinquenta anos depois e conta o retorno de alguns israelitas a Jerusalém e o que aconteceu quando reconstruíram suas vidas e a cidade.

Mais especificamente, o livro se concentra em três líderes importantes que guiaram os esforços de reconstrução: Zorobabel, Esdras e Neemias. Zorobabel foi o primeiro a liderar um grande grupo no retorno a Jerusalém, com o objetivo de reconstruir o templo (Ed 1-6). Cerca de 60 anos depois, Esdras chegou a Jerusalém para ensinar a Torá e reconstruir a comunidade (Ed 7-10). Ele logo foi seguido por Neemias, que liderou a reconstrução dos muros de Jerusalém (Ne 1-7).

As três histórias foram concebidas para refletirem paralelos entre si. Cada uma delas começa com um rei persa sendo levado por Deus a enviar um líder a Jerusalém, junto com recursos e apoio para a missão. Em cada caso, o líder encontra resistência em sua missão, consegue vencê-la, mas de uma maneira que culmina em um desfecho estranhamente anticlimático.

Esdras 1-6: Zorobabel lidera os primeiros exilados de volta a Jerusalém e reconstrói o Templo

A história começa com um decreto de Ciro (Ed 1:1-4), o rei da Pérsia que, movido por Deus, permite que os exilados retornem a Jerusalém e reconstruam o templo. O autor diz que isso cumpre uma promessa feita pelo profeta Jeremias (Jr 25) de que os exilados um dia retornariam. Agora, o cumprimento dessa promessa deveria despertar em nós a esperança em muitas outras promessas proféticas de que o exílio de Israel não representava o fim da sua história. O leitor deve se lembrar das esperanças proféticas de um rei messiânico da linhagem de Davi (Is 11; Os 3), de um templo reconstruído onde a presença santa de Deus habitará (Ez 40-48; Zc 2), e da vinda do reino de Deus sobre todas as nações, trazendo sua bênção a todos (Is 2; Zc 8), assim como ele prometeu a Abraão (Gn 12:1-3).

É com todas essas esperanças em mente que lemos a história de Zorobabel. Seu nome significa "plantado na Babilônia". Ele representa a geração nascida no cativeiro babilônico e lidera um grupo de pessoas de volta a Jerusalém (Ed 1-2).

Depois que eles se estabelecem em Jerusalém, eles reconstroem o altar para ofertas de sacrifícios e, mais tarde, reformam o próprio templo. A cerimônia de lançamento da fundação (Ed 3) e a dedicação final do templo (Ed 6) são momentos importantes. Devemos nos lembrar das histórias do passado sobre o tabernáculo e a dedicação do templo, quando a nuvem ardente da presença de Deus desceu (Lv 9; 1Rs 8). Não é isso que acontece neste caso, e embora algumas pessoas estivessem felizes com o novo templo, os anciãos que viram o templo anterior de Salomão choraram de tristeza. Este edifício não se parece em nada com seu passado glorioso ou com as esperanças que tinham para o futuro.

É aqui que encontramos a primeira história de oposição, e é uma história bastante incomum. Os descendentes dos israelitas que não foram levados para o exílio e viviam nos arredores de Jerusalém há algum tempo vêm e oferecem ajuda na reconstrução do templo (Ed 4). Zorobabel se recusa e diz: "Vocês não farão parte do nosso templo!" Naturalmente, isso provoca um conflito, que Zorobabel consegue superar, mas isso deve nos deixar decepcionados. Os profetas haviam imaginado que as tribos de Israel se uniriam com todas as nações para participar da adoração do Deus de Israel quando seu reino finalmente chegasse (Is 2; Zc 8). Essa virada de acontecimentos é, no mínimo, uma introdução anticlimática.

Esdras 7-10: Esdras conduz mais israelitas de volta a Jerusalém e decreta o divórcio

Na próxima seção (Ed 7-10), avançamos algumas décadas no futuro e somos apresentados a Esdras, um líder entre os israelitas exilados na Babilônia. Esdras é um estudioso e mestre da Torá, e Artaxerxes, rei da Pérsia, o encarrega de conduzir um novo grupo de pessoas de volta a Jerusalém. Ele quer trazer uma renovação social e espiritual ao povo.

Nossas esperanças são grandes, mas chegamos mais uma vez a outro momento estranho e anticlimático na história com os capítulos 9-10. Esdras descobre que muitos dos israelitas exilados haviam retornado e se casado com não exilados que viviam ao redor de Jerusalém, alguns dos quais não eram israelitas e outros provavelmente eram. Esdras então recorre aos mandamentos da Torá de que Israel deve ser santo e separado dos antigos cananeus (Dt 23:1-4), e continua dizendo que as pessoas que vivem ao redor de Jerusalém são semelhantes aos cananeus e corromperão os exilados. Ele oferece uma oração de arrependimento, muito sincera, e em seguida convoca todos os líderes durante uma tempestade. Ele promulga um decreto de divórcio que anulará esses casamentos e enviará todas essas mulheres e seus filhos embora. O decreto só é cumprido em parte, mas a narrativa nos apresenta uma lista de alguns dos homens que o levaram adiante.

Esta história é estranha por várias razões. Deus nunca ordenou a Esdras que fizesse qualquer uma dessas coisas, foram os líderes de Jerusalém que obrigaram Esdras a fazer o decreto. Embora o profeta contemporâneo Malaquias tenha dito que os exilados deveriam se preocupar com a pureza, ele continuou dizendo que Deus se opõe ao divórcio (Ml 2:13-16). Os resultados mistos do decreto se encaixam bem nesse padrão de desfechos estranhos e decepcionantes.

Neemias 1-7: Neemias retorna para reconstruir os muros de Jerusalém

Isso nos leva à seção sobre Neemias, que é um oficial israelita servindo no governo persa (Ne 1-7). Ao saber da destruição dos muros de Jerusalém, ele ora e recebe permissão do rei persa Artaxerxes para ir e reconstruí-los. O rei até providencia uma escolta armada para ele e suprimentos adicionais. Depois de chegar e iniciar o projeto de construção, ele também enfrenta a oposição do povo que já vivia ao redor de Jerusalém. Mais uma vez, nos deparamos com uma tensão na história. O profeta contemporâneo Zacarias disse que a nova Jerusalém do reino de Deus seria uma cidade sem muros, cercada pela presença de Deus e habitada por pessoas de todas as nações (Zc 2:3-11). Mas Neemias parece ter uma perspectiva totalmente contrária. Ele informa ao povo ao redor de Jerusalém que eles "não têm parte" na cidade (Ne 2:19-20), o que provoca hostilidade. Embora Neemias leve adiante sua visão para a cidade com integridade e proteja corajosamente a cidade com guardas armados, ficamos nos perguntando se todo esse conflito poderia ter sido conduzido de outra forma.

Neemias 8-13: um grande festival e o subsequente fracasso de Neemias

A conclusão do livro ocorre em dois movimentos, o primeiro é positivo (Ne 8-12) e o segundo é negativo (Ne 13). Esdras e Neemias unem forças para promover a renovação espiritual do povo. Eles reúnem os ex-exilados para um grande festival, onde leem e ensinam a Torá a todo o povo por sete dias. Em seguida, eles celebram a Festa dos Tabernáculos para lembrar a fidelidade de Deus no Êxodo e nas viagens pelo deserto. Depois disso, o povo oferece uma confissão de seus pecados, bem como dos pecados de seus ancestrais, prometendo renovar sua aliança com Deus e seguir todos os mandamentos da Torá. Eles terminam com uma grande celebração sobre os muros concluídos de Jerusalém, ecoando a celebração do templo no início do livro.

Aqui, ficamos com a impressão de que esse seria o momento decisivo da narrativa, mas, na verdade, não é. O livro termina com um grande declínio (Ne 13). Neemias percorre a cidade e descobre que o povo não cumpriu seus votos de aliança. O trabalho de Zorobabel é desfeito quando o templo é negligenciado e administrado por pessoas não qualificadas. O trabalho de Esdras também é comprometido quando Neemias descobre que as pessoas estão violando a Torá e trabalhando no sábado. Até mesmo seu próprio trabalho nos muros é prejudicado, pois as pessoas estão montando mercados junto aos muros e portões para trabalhar no sábado. Neemias fica furioso, bate nas pessoas, arranca os cabelos delas e ordena que todos cumpram os mandamentos da Torá. Suas últimas palavras registradas são uma oração pedindo que Deus se lembre dele com bondade, já que ele pelo menos tentou.

É um desfecho estranho, porém sentimos que estamos preparados para ele. Todos esses momentos anticlimáticos e decepcionantes foram intencionalmente entrelaçados na estrutura do livro. E isso levanta a questão: qual a contribuição deste livro para o enredo da Bíblia?

O livro de Esdras-Neemias começa levantando nossas esperanças nas promessas proféticas do messias, do templo e do reino de Deus, mas nada disso acontece. Mesmo que Israel esteja de volta à sua terra, seu estado espiritual parece inalterado em relação ao período antes do exílio. Mesmo com todo esforço de Esdras e Neemias, as reformas políticas e sociais não conseguem transformar os problemas centrais nos corações do povo. Esta é exatamente a mesma necessidade que Jeremias e Ezequiel destacam em sua poesia. Israel precisa de uma transformação holística de seus corações se quiserem amar e obedecer a seu Deus.

Embora o livro termine em tom pessimista, somos forçados a continuar lendo para descobrir como Deus cumprirá suas grandes promessas da aliança.