Malaquias
Sobre

Um aspecto importante da antiga organização da Bíblia hebraica chamada TaNaK é que as doze obras proféticas que vão de Oseias a Malaquias, às vezes chamadas de Profetas Menores, foram elaboradas como um único livro chamado Os Doze. Malaquias é o último livro dos Doze.
Malaquias viveu cerca de 100 anos depois que os israelitas retornaram do exílio babilônico, e sua mensagem era direcionada ao povo que já vivia em Jerusalém há algum tempo. O templo havia sido reconstruído há algum tempo, mas devemos nos lembrar que, segundo as histórias em Esdras-Neemias, as coisas não estavam indo bem. Quando os primeiros israelitas retornaram do exílio, as esperanças eram grandes. Eles reconstruiriam suas vidas e o templo, e todas as grandes promessas dos profetas se tornariam realidade. O messias viria e estabeleceria o reino de Deus sobre um Israel unificado e sobre as outras nações, trazendo paz e justiça.
Infelizmente, nada disso havia acontecido, e os israelitas que repovoaram a cidade provaram ser tão infiéis a Deus quanto seus antepassados. Jerusalém se tornou um lugar de pobreza e injustiça mais uma vez, e descobrimos no livro de Malaquias que esta nova geração havia se tornado bem corrupta.
O livro é organizado como uma série de disputas ou argumentos. A maioria das seções começa com Deus dizendo algo, seja afirmando ou acusando. Em seguida, Israel discorda ou questiona a declaração de Deus. Por fim, Deus responderá e oferecerá a última palavra. Este padrão se repete seis vezes. Nas três primeiras disputas (cap. 1-2), Deus expõe a corrupção de Israel, enquanto nos três últimos capítulos (cap. 3), ele confronta diretamente essa corrupção. A impressão geral que se tem ao ler essas disputas é que o exílio não mudou fundamentalmente o povo; seus corações permanecem endurecidos.
Malaquias 1-2: expondo a corrupção de Israel
A primeira disputa (Ml 1:2-5) começa quando Deus diz que ainda ama Israel, o povo da aliança, apesar de seus fracassos. Israel responde de forma ríspida: "De que maneira nos demonstraste amor?" Deus os faz lembrar de como ele escolheu graciosamente a família de Jacó, seu ancestral, para se tornar a portadora das promessas da aliança de Deus, em vez de seu irmão Esaú e sua família, que acabaram caindo em desgraça (Gn 25-27; Ob). Israel se mostra desconfiado desde o início nesta primeira disputa, duvidando da fidelidade e do amor de Deus.
A segunda disputa (Ml 1:6-2:9) expõe um problema com o segundo templo de Israel. Deus acusa o povo de desprezá-lo e profanar o templo (Ml 1:6-7), e o povo reage: "De que maneira temos desprezado o teu nome?" A resposta de Deus destaca que o povo apresenta ofertas desonrosas de animais doentes e defeituosos. Isso mostra que eles não valorizam ou honram seu Deus. E os sacerdotes também fazem parte do problema, pois não apenas toleram, mas também participam dessas formas corruptas de adoração. O povo de Deus mostrou-se completamente sem fé em todos os níveis sociais e hierárquicos possíveis.

Na terceira disputa (Ml 2:10-16), Deus acusa os homens israelitas de traição contra ele e suas esposas (Ml 2:10; Ml 2:14). É claro que eles negam, e Deus expõe a combinação tóxica de idolatria e divórcio que estava ocorrendo. Homens israelitas estavam se casando com não israelitas e adorando os deuses ancestrais de suas esposas em seus lares (Ne 13). Em seguida, Malaquias associa essa realidade a uma crescente prática de homens que abandonam suas esposas sem motivo válido. A pior parte é que o povo parece não se importar com nada isso. Malaquias diz não! Isso é uma traição à aliança deles com Deus.
Malaquias 3: confrontando a rebelião de Israel
O livro de Malaquias faz a transição para o segundo conjunto de disputas, que confronta a rebelião de Israel. A quarta disputa (Ml 2:17-3:5) começa com os israelitas acusando Deus de negligência, dizendo: "Onde está o Deus da justiça?" Eles veem a injustiça e a corrupção proliferarem, mas Deus parece não fazer nada. Deus responde dizendo que enviará um mensageiro que preparará o povo para seu retorno pessoal no Dia do Senhor. Ele virá como um fogo para purificar seu povo e remover a idolatria, a imoralidade sexual e a injustiça social, de modo que apenas os remanescentes fiéis se tornem seu povo.
Na quinta disputa (Ml 3:6-12), Deus chama o povo a se voltar para ele, e eles perguntam: "Como?!" Deus confronta o egoísmo deles e os lembra de que deixaram de oferecer o dízimo de sua renda ao templo. Nesse momento, a palavra "dízimo" significa apenas "um décimo", que deveria ser a quantia de sua renda doada anualmente para sustentar o templo e seus sacerdotes, uma prática estabelecida na Torá em Levítico 27:30 e Deuteronômio 12:6. No entanto, sabemos por Malaquias e Neemias 13:10-11 que o povo havia negligenciado essa responsabilidade, e o templo caiu em abandono. Deus os confronta, dizendo que, embora ele queira abençoá-los com abundância, isso só acontecerá se forem fiéis.
Na disputa final (Ml 3:13-18]), o povo acusa Deus, dizendo que é inútil servi-lo. Eles veem pessoas ímpias e orgulhosas prosperando constantemente e Deus parece não fazer nada a respeito. A resposta, pela primeira vez no livro, não é um discurso de Deus, mas uma pequena história (Ml 3:16-18). Essa história é sobre o remanescente fiel em Israel, sobre aqueles que ainda temem o Senhor e se deleitam em discutir juntos sobre como como honrá-lo e servi-lo. Deus ordena que um "livro memorial" seja escrito para eles, para que possam lê-lo e recordar melhor o caráter e as promessas de Deus. Malaquias está refletindo aqui sobre o presente divino das Escrituras. Elas nos apontam para o passado para lembrar o que Deus fez, a fim de inspirar fidelidade e esperança para o futuro.

Malaquias 4: Dia do Senhor e conclusão
Isso leva à conclusão do livro em Malaquias 4:1-3. Esta passagem retoma e desenvolve ainda mais as imagens da quarta disputa sobre o futuro dia do Senhor. Deus designou esse dia do juízo purificador para eliminar os ímpios entre seu povo, mas, como a conclusão indica, ainda há um futuro para o remanescente. Para eles, o Dia do Senhor não é uma ameaça, mas um motivo de alegria. Esse dia será como os raios do sol nascente, trazendo vida e cura, bem como esperança para o futuro.
As disputas de Malaquias chegam ao fim, mas, na verdade, ainda há mais algumas coisas no livro. Os três últimos versículos (Ml 4:4-6) não fazem parte das disputas, e funcionam mais como um apêndice final que encerra não apenas Malaquias, mas toda a Torá e os Profetas.
Primeiro, o leitor é chamado a "lembrar a lei (ou Torá) de meu servo Moisés" (Ml 4:4), que lembra a história e as leis da aliança nos cinco primeiros livros da Bíblia. Em seguida, ouvimos este resumo dos livros dos Profetas: "Eu enviarei o profeta Elias antes do Dia do Senhor, que restaurará os corações do povo de Deus" (Ml 4:5-6).
Essa conclusão, em primeiro lugar, resume a Torá e os Profetas como uma história unificada que aponta para o futuro. Israel foi redimida por Deus, mas depois eles o traíram sendo rebeldes, endurecendo os corações e quebrando as leis da Torá. As Escrituras antecipam um dia futuro em que Deus enviará um novo Moisés e um novo Elias, que restaurarão o povo de Deus e curarão seus corações endurecidos (Dt 30; Jr 31; Ez 36).
Este apêndice final também apresenta a Torá e as Escrituras proféticas como um presente divino para leitura, meditação e oração. Elas contam a verdade sobre a condição humana, sobre nosso egoísmo e pecado, mas também anunciam a promessa de Deus de um dia enviar um mensageiro e aparecer pessoalmente para confrontar o mal, restaurar seu povo e trazer sua justiça.
Essa esperança futura é o tema de Malaquias, da Torá e dos Profetas.

