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Ezequiel

Sobre

Ezequiel 1-33
7:24
Panoramas do Antigo Testamento
Ezequiel 1-33

Ezequiel era um sacerdote que vivia em Jerusalém durante o primeiro ataque babilônico à cidade (2Rs 24:8-17). A cidade em si foi poupada, mas o rei da Babilônia levou um primeiro grupo de israelitas como prisioneiros para o exílio e Ezequiel estava entre eles. O livro começa cinco anos depois desses eventos traumáticos, e encontramos Ezequiel sentado à margem de um canal de irrigação perto de seu acampamento de refugiados israelitas, justo em seu aniversário de 30 anos. Esse é o ano em que ele teria sido consagrado como sacerdote em Jerusalém.

Ezequiel 1-11: comissionamento, atos simbólicos e a saída de Deus do templo

De repente, ele tem uma visão e vê uma nuvem de tempestade se aproximando, e dentro da nuvem, ele vê quatro criaturas estranhas conectadas por suas asas estendidas. Cada uma das criaturas tem quatro faces: um humano, um leão, um boi e uma águia, e cada uma das criaturas está em cima de uma roda. Suas asas sustentam uma plataforma deslumbrante que contém um trono com uma figura misteriosa semelhante a um ser humano envolvido em fogo e luz brilhante. Ezequiel percebe o que está vendo e descreve aquilo como a "aparência da glória do Senhor" sobre sua carruagem real.

A palavra hebraica para "glória" é kavod, e significa "pesado" ou "significativo". Os autores bíblicos usam esta palavra para descrever as manifestações físicas da importância de Deus quando ele aparece pessoalmente. As imagens da visão são semelhantes a quando Deus apareceu no Monte Sinai em Êxodo 19 e 24, bem como quando sua presença veio sobre a arca da aliança em Êxodo 25. E isso, na verdade, é o aspecto mais chocante da visão de Ezequiel. A presença gloriosa de Deus devia habitar o templo de Jerusalém. O que a glória de Deus está fazendo na Babilônia?! Esta pergunta, que teria sido óbvia para qualquer israelita antigo, é o que a primeira seção do livro de Ezequiel busca responder.

De cima do carro-trono, Deus fala primeiro a Ezequiel e o comissiona como profeta (caps. 1-3). Ele deve acusar Israel de quebrar a aliança com seu Deus. Israel deu sua lealdade a outros deuses e tem adorado ídolos, o que levou à injustiça social e à violência desenfreadas. Em resposta a tudo isso, Deus designou Ezequiel para alertar Israel de que o primeiro ataque babilônico a Jerusalém seria acompanhado de um segundo ataque, mas desta vez a cidade e seu templo seriam totalmente destruídos.

Nos capítulos 4-5, vemos como Ezequiel transmite sua mensagem com palavras e realizando atos simbólicos, que era um tipo de teatro de rua da antiguidade. Ezequiel agia em público de formas estranhas e bizarras, servindo como parábolas vivas de sua mensagem profética. Ele foi chamado para construir um pequeno modelo de Jerusalém e encenar o próximo ataque babilônico. Ele raspou todo o cabelo e o cortou com uma espada. No exemplo mais extremo, ele assumiu o papel de bode expiatório no Dia da Expiação, permanecendo deitado de lado por mais de um ano e ingerindo alimentos preparados sobre excrementos humanos, simbolizando a comida repugnante que seria consumida durante o cerco de Jerusalém.

Contudo, talvez a parte mais desanimadora de todas seja a má notícia que Deus deu a Ezequiel: ninguém ia ouvir sua mensagem. Israel o rejeitaria por causa de seus corações rebeldes e "endurecidos" (Ez 2:4; Ez 3:7). Isso nos faz lembrar a descrição de Moisés sobre Israel depois das rebeliões no deserto e sua previsão de que Israel acabaria no exílio (Dt 30). Ezequiel teve o infeliz privilégio de ver a advertência de Moisés se tornar uma realidade sombria.

Depois de ser comissionado, Ezequiel, abatido, começou a realizar suas tarefas. Após cerca de um ano, ele tem outra visão, na qual é levado a um "passeio virtual" pelo templo para ver o que está acontecendo lá na sua ausência (caps. 8-11), e a situação não é boa. No pátio externo em frente ao templo fica uma grande estátua de ídolo. Ele vê os anciãos de Israel adorando outros deuses, tanto fora quanto dentro do templo, e ele também vê as mulheres adorando o deus babilônico Tamuz. Por fim, ele vê o glorioso carro-trono de Deus sair do lugar santíssimo, deixar o templo e seguir para o leste, em direção à Babilônia.

E assim fechamos um ciclo. No capítulo 11, descobrimos por que e como a glória de Deus se manifestou diante de Ezequiel enquanto ele estava sentado junto ao canal na Babilônia. A idolatria e as violações da aliança de Israel se tornaram tão gritantes e ofensivas que Deus decidiu deixar seu próprio templo. Os israelitas expulsaram seu Deus, e ele entrega a cidade e o templo à destruição, mas Deus não abandonou seu povo. Em vez disso, ele vai para o exílio com eles. No final da visão, Deus promete que trará de volta à terra um remanescente de Israel, transformando-o ao "remover seu coração de pedra e dar-lhe um novo coração de carne", para que possam amar e seguir seu Deus (Ez 11:19).

Esse é um pequeno lampejo de esperança que logo é submerso pela realidade da destruição iminente. O capítulo 11 é uma história de transição fundamental que nos ajuda a entender como o restante do livro de Ezequiel foi elaborado. As próximas três seções são todos anúncios do julgamento de Deus, começando por Israel (caps. 12-24), passando pelas nações vizinhas (caps. 25-32) e, por fim, tratando da própria cidade de Jerusalém (cap. 33). Após todo esse julgamento sombrio, encontramos nos capítulos 34-48 uma conclusão mais esperançosa para Israel, as nações e toda a Criação.

Ezequiel 12-24: alertas sobre o juízo vindouro de Israel

Os capítulos 12 a 24 do livro de Ezequiel concentram-se no iminente juízo de Deus sobre Israel. Trata-se de um conjunto variado de poemas e ensaios, nos quais Ezequiel demonstra seu gosto por parábolas e alegorias. Ele retrata Israel como lenha queimada e inútil (cap. 15), uma esposa rebelde (cap. 16), um leão perigoso e furioso capturado por caçadores (cap. 19) e como duas irmãs promíscuas (cap. 23). Estas são todas representações da rebelião sem sentido de Israel, sua idolatria e a destruição que isso provoca. Nos capítulos 14, 18 e 20, Ezequiel também age como advogado, argumentando que a destruição de Jerusalém é verdadeiramente merecida depois de séculos de violação da aliança. Ele argumenta que, mesmo que as pessoas mais justas do mundo, como Noé, Daniel e Jó, estivessem vivas e orando pela misericórdia de Israel, Deus não aceitaria suas orações. É tarde demais. A bondade de Deus, na verdade, exige que ele traga justiça a esta geração de Israel. O exílio se tornou inevitável, pois eles alcançaram um ponto sem volta.

Ezequiel 25-33: juízo sobre as nações e a destruição de Jerusalém

Em seguida, Ezequiel se concentra nas nações imediatamente ao redor de Israel, como Amom, Moabe, Edom e Filístia (cap. 25), bem como os dois estados mais poderosos da região, Egito e Tiro (cap. 26-32). Israel se aliou a essas nações e adotou seus deuses e ídolos. Mais especificamente, Deus acusa os reis de Tiro e do Egito de se ver arrogantemente como deuses, definindo o certo e o errado segundo seus próprios termos. Ele responsabiliza esses reis por seu orgulho e anuncia que usará a Babilônia para derrubá-los. Eles enfrentarão a justiça de Deus com todos os outros.

Seguindo essas seções intensas, há uma pequena história no capítulo 33. Ezequiel é abordado por um refugiado que acabou de chegar de Jerusalém para lhe dar um relatório. Babilônia atacou a cidade de Jerusalém mais uma vez. Desta vez, a cidade sucumbiu e o templo foi destruído. As advertências de Ezequiel se tornaram realidade. Mas no meio de sua tristeza, lembramos do vislumbre da esperança futura no final do capítulo 11. A destruição de Jerusalém não é o fim da história.

Ezequiel 34-48
7:13
Panoramas do Antigo Testamento
Ezequiel 34-48

Ezequiel 34-37: a esperança vindoura pós-exílica

A próxima parte principal de Ezequiel (caps. 34-48) explora as consequências da destruição de Jerusalém e de seu templo. Esta foi a catástrofe mais horrível que já havia acontecido a Israel, e fez surgir a pergunta: será que Deus havia desistido de seu povo? No capítulo 11, porém, ficamos com a esperança de que ainda havia um futuro além do exílio. O restante do livro de Ezequiel é elaborado para explorar essa visão de esperança, primeiro para Israel (cap. 34-37), depois para as nações (cap. 38-39) e, finalmente, para toda a Criação (cap. 40-48).

Deus promete a Israel que levantará um "novo Davi", um futuro rei messiânico que será o tipo de líder de que Israel sempre precisou, mas nunca teve (cap. 34). O novo Israel que virá com o reino deste rei será transformado. Deus lidará com o problema de rebelião deles, dando-lhes novos corações (cap. 36). Assim como Moisés prometeu (Dt 30:6), Deus diz que vai remover os corações endurecidos de Israel e enviar seu Espírito ao seu povo para lhes dar corações novos e de carne que amarão e obedecerão a seu Deus (Ez 36:23-30).

Essa ideia é desenvolvida ainda mais no próximo capítulo através de uma visão estranha (cap. 37). Ezequiel vê um enorme vale cheio de ossos e esqueletos humanos secos. Deus diz a ele que é uma imagem do estado espiritual de Israel. Sua rebelião contra Deus resultou no exílio, o que trouxe uma morte metafórica e literal a Israel. Deus, em seguida, diz a Ezequiel que seu Espírito virá e os trará de volta à vida. Um vento vem e faz os ossos se levantarem, enchendo-os de fôlego e vida e fazendo com que recuperem a pele. De repente, Ezequiel vê todos esses novos humanos em pé diante dele!

Esta visão lembra a história sobre a criação da humanidade de Gênesis 2, na qual Deus criou os humanos a partir de terra e fôlego divino. Israel e toda a humanidade se rebelaram, resultando em morte, de modo que a única esperança que resta é de que Deus realize um ato de nova criação e refaça os humanos de tal maneira que eles verdadeiramente vivam em um relacionamento de amor com Deus e com os outros.

Assim, mesmo que Deus trate do mal no coração de seu povo, algumas perguntas ainda ficam sem resposta. E quanto ao mal que continua tão presente nas outras nações? E o templo? É disso que tratam as duas últimas seções do livro.

Ezequiel 38-39: Deus derrota Gogue, um rei que representa nações malignas

Primeiro, temos os capítulos 38 e 39, onde Deus promete derrotar de uma vez por todas o mal entre as nações, personificado por um governante chamado "Gogue da terra de Magogue". O nome deriva de uma genealogia de reinos antigos em Gênesis 10, que se referia a nações poderosas do passado distante. Ezequiel retoma esse nome antigo para representar reinos violentos de qualquer período da história. É por isso que encontramos Gogue aliado a sete nações que vêm de todas as direções do mundo. Este exército é um símbolo de todas as nações rebeldes reunidas. Isso também nos ajuda a entender por que Ezequiel descreve Gogue com imagens que ele usou anteriormente para descrever o rei de Tiro e o faraó do Egito. Para Ezequiel, Gogue é um amálgama de todos os piores governantes da Bíblia, um arquétipo da rebelião humana contra Deus.

O ponto central da história aqui é que Gogue resiste ao plano de Deus de restaurar seu povo. Assim como o faraó na história do Êxodo, Gogue vem para destruí-los. Deus, no entanto, desencadeia sua justiça sobre Gogue em uma série de cenas que não fazem sentido literal quando lidas em sequência. Gogue é primeiro consumido por um terremoto e, em seguida, novamente pelo fogo. Mas depois disso, Deus ataca Gogue e seu exército nos campos, e eles ficam ali por meses, sem ser enterrados. Fica claro que essas cenas estão repletas de imagens simbólicas. Ezequiel usou todo o seu repertório poético para descrever como Deus está abrindo o caminho para uma nova Criação ao finalmente derrotar todo o mal humano que destruiu o seu mundo.

Ezequiel 40-48: visão do templo restaurado e da Criação renovada

Depois da vitória de Deus, os capítulos 40-48 descrevem como a presença de Deus um dia retornará a seu povo e ao seu templo, resultando em uma restauração cósmica. Ezequiel tem uma visão elaborada de um novo templo e uma nova cidade. Ele recebe um guia turístico celestial, que mostra a Ezequiel este novo complexo do templo que é muito maior e ainda mais majestoso do que o templo de Salomão. Há um novo altar, novos sacerdotes e um novo sistema de adoração. Após o detalhado passeio, o glorioso carro-trono de Deus que Ezequiel viu em sua primeira visão retorna e entra neste novo templo.

O significado dessas visões, porém, vem sendo debatido há muito tempo. Alguns leitores judeus e cristãos acreditam que essa visão se cumprirá literalmente um dia e que esses capítulos oferecem os planos reais do novo templo a ser construído quando o Messias voltar e trouxer o reino de Deus. Muitos outros leitores judeus e cristãos acreditam que esta visão, assim como as outras visões de Ezequiel, está cheia de imagens simbólicas. Elas representam a realidade do retorno da presença de Deus ao seu povo no reino messiânico, mas não necessariamente na forma de um edifício real.

Independentemente da interpretação, é importante perceber que Ezequiel nunca se refere à cidade como Jerusalém, e no capítulo 47 descobrimos o motivo. Ezequiel vê um pequeno riacho saindo do limiar do templo, que rapidamente se torna um rio caudaloso que flui do templo, atravessa a cidade e deságua no deserto. O rio desemboca em um dos lugares mais desolados do planeta Terra, o Vale do Mar Morto. À medida que o rio avança, deixa para trás um rastro de árvores e vida, e o Mar Morto se transforma em um mar vivo, repleto de plantas e animais. Todas essas imagens têm origem na descrição do jardim do Éden em Gênesis 1-2, e agora podemos enxergar o alcance da visão de Ezequiel. O plano de Deus sempre foi restaurar toda a humanidade e a Criação à sua presença vivificante, exemplificada no nome desta cidade-jardim: "O Senhor está ali" (Ez 48:35).

É com essas imagens impactantes que o livro de Ezequiel chega ao fim. Do meio das trevas de Israel e do mal humano surge um futuro repleto de esperança. Haverá novos humanos vivendo em um novo mundo cheio da vida do Espírito de Deus e marcado pelo seu amor e sua justiça. Esta é a profunda esperança do profeta Ezequiel.