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Joel

Sobre

Joel
6:49
Panoramas do Antigo Testamento
Joel

Um aspecto importante da antiga organização da Bíblia hebraica chamada TaNaK é que as doze obras proféticas que vão de Oseias a Malaquias, às vezes chamadas de Profetas Menores, foram elaboradas como um único livro chamado Os Doze. Joel é o segundo livro dos Doze.

O livro de Joel é uma pequena coletânea de poemas proféticos que são ao mesmo tempo poderosos e intrigantes. Este livro se destaca entre os livros dos profetas por algumas razões, começando pelo fato de que não há uma indicação explícita de quando foi escrito. Tendo em vista que o livro menciona Jerusalém e o templo, mas não um reino, é provável que se passe durante a época de Esdras e Neemias, após o retorno do exílio. Outro aspecto que distingue este livro é que Joel demonstra claramente conhecer muitos outros livros das Escrituras, pois faz alusões ou cita os profetas Isaías, Amós, Sofonias, Naum, Obadias, Ezequiel e Malaquias, assim como o livro do Êxodo. Por fim, Joel nunca acusa Israel de qualquer pecado específico. Assim como os outros profetas, ele anuncia que a justiça de Deus está vindo para confrontar o pecado de Israel, mas ele nunca diz o motivo. Isso acontece porque Joel parte do pressuposto de que já lemos os livros dos profetas e já conhecemos toda a rebelião de Israel, assim como ele.

Juntas, essas três características nos ajudam a entender um pouco melhor este pequeno e fascinante livro. Joel é um autor bíblico que estava imerso em escritos bíblicos anteriores. Sua reflexão sobre esses escritos o ajudou a entender as tragédias de seus dias e lhe deu esperança para o futuro.

Joel 1-2b: um Dia do Senhor no passado e também no futuro

Nos capítulos 1 e 2, Joel se concentra no "Dia do Senhor". Trata-se de uma expressão importante nos profetas que descreve eventos no passado, quando Deus apareceu de maneira poderosa para salvar seu povo ou para confrontar o mal, como as pragas no Êxodo. Mas esses eventos do passado servem aos profetas como sinais de um tempo futuro em que Deus novamente confrontará o mal e trará salvação a todo o mundo. Esses capítulos iniciais trazem dois poemas paralelos que focam neste tema.

O capítulo 1 trata de um Dia do Senhor no passado e começa relembrando um desastre recente, quando um enxame de gafanhotos devastou Israel. A descrição nos remete ao Dia do Senhor contra o Egito, especificamente à oitava praga de Êxodo, no capítulo 10. Agora, porém, os gafanhotos são enviados contra Israel! Joel convoca os anciãos e sacerdotes a liderarem o povo em arrependimento e oração. E o próprio Joel se une à oração: "A ti, Senhor, eu clamo" (Jl 1:19).

O capítulo 2 começa anunciando outro Dia do Senhor, mas desta vez é um evento futuro, um desastre iminente atingirá Jerusalém. Joel começa descrevendo o que a princípio parece ser outra onda de gafanhotos, mas isso acaba se transformando em um tipo diferente de ameaça à medida que Joel passa a usar metáforas sobre hierarquias militares e catástrofes cósmicas. Os gafanhotos se transformam em um exército, com sua cavalaria e soldados marchando e destruindo tudo em seu caminho. O sol se escurece e a terra treme. Joel resume isso de forma apropriada: "O Dia do Senhor é terrível; quem poderá suportar?" (Jl 2:11).

Joel convoca o povo a orar e se arrepender mais uma vez, mas agora explica: "Rasguem o coração, e não as vestes. Voltem-se para o Senhor" (Jl 2:13). Em outras palavras, o arrependimento não pode ser apenas uma encenação para se livrar de problemas. Deus se interessa por uma mudança genuína, quando seu povo abandona o egoísmo e o mal. Joel então prossegue, explicando por que Israel deve se arrepender: "Deus é misericordioso e compassivo, muito tardio em irar-se e cheio de amor" (Jl 2:13). Esta é uma citação de Êxodo 34:6, quando Deus perdoou Israel depois que eles fizeram o bezerro de ouro. Joel sabe pelas Escrituras que a misericórdia e o amor de Deus são mais poderosos do que a ira e o juízo, por isso, ele guia os sacerdotes em atos de arrependimento e oração mais uma vez, pedindo a Deus que "perdoe o teu povo, ó Senhor" (Jl 2:17).

De repente, o foco muda e encontramos uma breve narrativa sobre a resposta de Deus ao arrependimento de Joel e do povo. "Assim, Deus se encheu de paixão por sua terra e teve piedade de seu povo" (Jl 2:18). Deus diz que ele reverterá o Dia do Senhor, transformando o juízo em salvação. Ele derrotará os invasores e os expulsará de uma vez por todas. Ele restaurará a terra devastada e a tornará abundante e cheia de vida mais uma vez. Por fim, Deus diz que sua presença divina mais uma vez se tornará acessível e real entre seu povo.

Até este ponto, os poemas contaram uma história poderosa, na qual Joel leva Israel a perceber como o pecado do povo resultou em desastre e juízo divino. E, no entanto, por causa da misericórdia de Deus, sempre há esperança. Em meio a esses eventos passados de calamidade e restauração, Joel enxerga uma representação do futuro Dia do Senhor.

Joel 2c-3: o Espírito capacitador de Deus e a renovação da Criação

Na seção final do livro de Joel (cap. 2c-3), Joel escreve mais três poemas para combinar com a resposta de Deus em três partes, entrelaçando imagens de outros livros proféticos e expandindo-a em uma visão de esperança para toda a Criação. A esperança da presença de Deus entre seu povo é ampliada em uma promessa de que, um dia, o próprio Espírito de Deus e sua presença pessoal não apenas encherão o templo, mas também todo o seu povo. Aqui, Joel se baseia nas promessas em Isaías 32:15 e 44:3, Jeremias 31:31-34 e Ezequiel 36:23-28, de que o Espírito de Deus viria para capacitar e transformar seu povo, para que eles pudessem amá-lo e segui-lo.

Joel continua retomando a promessa de Deus de confrontar os invasores que ameaçam. Ele percebe nesses gafanhotos devastadores uma semelhança com as nações arrogantes e violentas de seu tempo, que destruíam e oprimiam seu povo. Ele invoca as promessas em Isaías 13, Sofonias 3 e Ezequiel 38-39 sobre o futuro Dia do Senhor, quando Deus confrontará o mal entre as nações e fará com que a violência delas se volte contra si mesmas, manifestando, assim, sua justiça e corrigindo tudo o que está errado.

Por fim, Joel retoma as imagens da restauração da terra e vislumbra a esperança da renovação de toda a Criação. Ele relembra as promessas em Isaías 35, Ezequiel 47 e Zacarias 14, de que o último dia da justiça de Deus seria acompanhado da restauração de todo o mundo. O mundo se tornará um novo Éden, onde a presença de Deus em Jerusalém fluirá como um rio e trará uma renovação cósmica. O poema de Joel termina com o perdão e a misericórdia de Deus inaugurando uma Criação completamente nova.

Este livro pequeno e singular explora ideias profundas, como o modo pelo qual o pecado e as falhas humanas provocam tanta destruição em nosso mundo, como Deus deseja mostrar misericórdia àqueles que reconhecem e confessam seus pecados, e como tudo isso nos leva à esperança de que, um dia, Deus derrotará o mal, tanto no mundo quanto em nós mesmos, trazendo sua presença restauradora para fazer novas todas as coisas. No fim das contas, a mensagem de Joel é de esperança.