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1 e 2Crônicas

Sobre

1 e 2Crônicas
6:29
Panoramas do Antigo Testamento
1 e 2Crônicas

Embora Crônicas apareça como dois livros separados em nossas Bíblias modernas, ele foi originalmente escrito como uma única história coerente, sendo dividido posteriormente por causa do tamanho do rolo. Outro detalhe importante é que a posição atual desses livros na Bíblia cristã é diferente da posição original. Na maioria das Bíblias em português, Crônicas vem logo depois dos livros de Samuel e Reis. Mas grande parte de Crônicas repete o conteúdo desses livros, então muita gente começa a ler e pensa: “Ué, eu acabei de ler tudo isso!” E acaba pulando o livro.

Isso é uma pena, porque este é um livro realmente único e importante nas Escrituras hebraicas, com um projeto literário bem intencional. Na ordem judaica tradicional da Bíblia, Crônicas é na verdade o último livro, porque faz um resumo de todas as Escrituras judaicas. Ele começa com a palavra “Adão”, o nome do primeiro personagem humano no começo das Escrituras, e vai até o último parágrafo, que anuncia o retorno de Israel do exílio.

Contexto dos livros de Crônicas

Na verdade, não sabemos quem escreveu Crônicas, mas alguns detalhes sugerem que o autor viveu séculos após o retorno dos israelitas do exílio na Babilônia. Para essa pessoa, Jerusalém e o segundo templo já tinham sido reconstruídos fazia um tempo, mas, como a gente aprende em Esdras-Neemias, as coisas não iam nada bem. A grande esperança dos profetas era que a cidade e o templo seriam reconstruídos. Deus iria morar no meio do seu povo, o rei messiânico chegaria, e todas as nações se uniriam sob o seu governo de paz. Estava muito claro para todo mundo em Jerusalém, inclusive para esse autor, que nada disso tinha acontecido ainda.

Em resposta, o autor de Crônicas moldou as antigas histórias de Davi e Salomão para oferecer uma mensagem de esperança para o futuro. Esses livros foram organizados para destacar dois temas bem claros: a esperança na vinda do rei messiânico e a esperança por um novo templo.

1Crônicas 1–9: genealogias de reis e sacerdotes

1Crônicas começa com nove capítulos de genealogias, longas listas de nomes e linhagens familiares. Enquanto lemos essas listas, podemos achar tudo muito chato, mas esses capítulos são na verdade muito importantes! Por meio deles, o autor está resumindo toda a história da Bíblia hebraica ao mencionar todos os personagens principais.

O autor organizou essas genealogias para destacar duas linhagens específicas ligadas aos dois temas principais. A primeira é a linhagem do rei messiânico prometido. Grande parte do texto acompanha a linhagem de Judá até o rei Davi, a quem foi feita a promessa messiânica. Em seguida, a linhagem é traçada até o tempo do próprio autor dos livros. A outra família que recebe bastante destaque é a dos sacerdotes, os descendentes de Arão que trabalhavam no templo de Jerusalém. Então, vemos desde o início que os dois temas principais dos livros de Crônicas (a esperança no Messias e no novo templo) estão profundamente enraizados nessas antigas genealogias.

1Crônicas 10–29: o rei Davi como ideal messiânico

Daqui, seguimos para as histórias sobre Davi (1Cr 10–29) e, embora a maioria delas seja conhecida por quem lê os livros de Samuel, existem algumas diferenças muito importantes. Primeiro, o autor deixa de fora todas as histórias negativas em que Davi aparece como fraco ou imoral. Histórias como Saul perseguindo Davi pelo deserto, o estupro de Bate-Seba e o assassinato de seu marido por parte de Davi, não são incluídas. Somente são apresentadas histórias que mostram Davi como um cara do bem.

Também temos novas informações que mostram Davi de uma forma muito positiva. Há um grande bloco de capítulos (1Cr 22–29) em que Davi faz os preparativos para o primeiro templo, organizando os construtores, os levitas e os coros. O autor chega até a apresentar Davi como uma figura parecida com Moisés. Deus dá a Davi os planos para construir o templo, assim como deu a Moisés os planos para o tabernáculo (compare 1Cr 28:11-19 com Êx 25:9).

Por que, então, temos todas essas novas informações sobre Davi? Fica claro que o autor não está tentando esconder as falhas de Davi, já que ele sabe que qualquer leitor pode encontrá-las nos livros de Samuel. Em vez disso, parece que o autor está tentando retratar Davi como um rei ideal para criar uma profecia em forma de narrativa que aponte para a imagem do futuro rei messiânico. Isso é bem parecido com a maneira como Jeremias e Ezequiel falaram sobre o messias que viria como “um novo Davi” (Jr 30:9; Ez 37:25).

Essa ideia fica mais clara quando lemos a história da promessa da aliança de Deus para Davi em 1Crônicas 17 e a comparamos com o relato anterior e paralelo em 2Samuel 7. O autor de Crônicas deixa bem evidente que nem Davi, nem Salomão, nem qualquer um dos reis daquela linhagem foram o rei messiânico. Mas, quando esse messias chegar, ele será um rei como o Davi idealizado dessas histórias. Para o autor, essas histórias clássicas de Davi do passado são, na verdade, vislumbres do futuro reino de Deus.

2Crônicas 1–36: os reis de Judá e uma história inacabada

À medida que avançamos em 2 Crônicas, encontramos muita coisa em comum com 1 e 2Reis, embora, mais uma vez, haja algumas diferenças importantes. O autor deixa de fora todas as histórias dos reis do reino do norte de Israel e continua focado na linhagem de Davi. Há muito conteúdo novo e muitas histórias sobre esses reis davídicos, e o autor destaca especialmente aqueles que foram obedientes a Deus e experimentaram sucesso e bênção. O autor também acrescenta novas histórias sobre reis que foram infiéis a Deus. Aqueles que não seguiram a Torá e conduziram Israel à adoração de ídolos enfrentaram consequências terríveis e, no fim, acabaram provocando o exílio na Babilônia. Todo esse caos foi criado por eles mesmos.

Toda essa seção se torna uma série de estudos de personagens para as gerações futuras. O autor quer que todo o povo de Deus aprenda com a própria história de sua família e se torne fiel ao seu Deus e à Torá.

A conclusão do livro também é especial. No finalzinho, Ciro, o rei da Pérsia, diz aos israelitas que eles podem voltar do exílio e reconstruir o templo em Jerusalém. Ele declara: “Quem dentre vocês pertence ao povo dele, que o Senhor, seu Deus, esteja com essa pessoa, e que ela suba…” (2Cr 36:23, NVT).

É assim que o livro termina, com uma frase incompleta que, em hebraico, soa ainda mais estranha do que em português. Agora, é claro que o autor conhece o primeiro retorno do exílio e as histórias de Esdras e Neemias, mas, pelo jeito, na visão dele, as esperanças proféticas de Israel não se cumpriram nesses acontecimentos. Esse final em aberto mostra que a esperança do autor está em um novo retorno do exílio, quando o Messias virá para reconstruir o templo e restaurar o povo de Deus.

Então, os livros de Crônicas, os últimos livros nas Escrituras judaicas, terminam apontando para o que está adiante. Eles convidam o povo de Deus a olhar para trás para que possa olhar adiante, pois o passado é a fonte de esperança para o futuro. Crônicas conclui a Bíblia hebraica como uma história em busca de um final.