Ester
Sobre

Este é um dos livros mais emocionantes e curiosos da Bíblia. A história se passa mais de 100 anos depois do exílio babilônico dos israelitas. Embora alguns judeus tenham retornado a Jerusalém (veja Esdras-Neemias), muitos não voltaram. O livro de Ester trata de uma comunidade judaica que vivia em Susã, a capital do antigo império persa. Os personagens principais são dois judeus: Mardoqueu e sua sobrinha Ester. Também temos o rei da Pérsia e o oficial persa Hamã, o vilão astuto.
Ester é um livro curioso na Bíblia porque Deus não é mencionado uma vez sequer. Isso pode parecer estranho, já que a Bíblia deveria ser um livro sobre Deus. Contudo, trata-se de um recurso literário genial empregado pelo autor desconhecido e um convite para lermos a narrativa em busca da atuação de Deus, cuja presença pode ser percebida em toda a história. A narrativa está repleta de coincidências incomuns e reviravoltas irônicas que nos levam a enxergar o propósito de Deus atuando por trás de cada cena.
Ester 1-2: Ester se torna rainha
A história começa quando o rei da Pérsia realiza dois luxuosos banquetes que duram, ao todo, 187 dias, com o grandioso objetivo de exibir sua grandeza e esplendor. No último dia da festa, o rei fica bêbado e exige que sua esposa, a rainha Vasti, apareça na festa para mostrar sua beleza. Ela se recusa e, em um acesso de fúria embriagada, o rei depõe Vasti e emite um decreto absurdo de que todos os homens persas devem ser os senhores de suas próprias casas.
Em seguida, o rei realiza um concurso de beleza para encontrar uma nova rainha. E justamente quando a história começa a parecer uma novela ruim, somos apresentados a Ester e Mardoqueu. Ester esconde sua identidade judaica e se passa por persa, vencendo o concurso. O rei fica tão obcecado por Ester que a eleva ao posto de nova rainha da Pérsia. Em seguida, Mardoqueu "por acaso" ouve dois guardas reais conspirando para assassinar o rei. Ele informa Ester, que então conta ao rei, e Mardoqueu recebe crédito por ter salvado a vida do monarca. Apesar de Deus não ser citado em nenhum desses eventos extraordinários, tudo parece estar cuidadosamente orquestrado por sua providência. O que Deus está tramando?

Ester 3-6: a trama de Hamã e a ascensão de Mardoqueu ao poder
Começamos a descobrir na próxima parte da história. Agora, somos apresentados a Hamã, que não é persa, mas agagita, descendente dos antigos cananeus (1Sm 15). O rei eleva Hamã à posição mais alta do reino e exige que todos se ajoelhem diante dele. Mas quando Mardoqueu vê Hamã, ele se recusa a se ajoelhar. Hamã é tomado de fúria. Quando Hamã descobre que Mardoqueu é judeu, ele persuade o rei a promulgar um decreto para destruir todos os judeus. Eles decidem a data deste dia terrível de maneira ultrajante. Usando dados antigos chamados pur em hebraico, Hamã estabelece o decreto. Onze meses depois, no dia 13 de Adar, todos os judeus serão executados. Hamã e o rei dão uma festa para celebrar o decreto.
Em seguida, a história se concentra em Mardoqueu e Ester, que agora são a única esperança para o povo judeu. Eles planejam que Ester revele sua identidade judaica ao rei e peça que ele reverta o decreto (cap. 4). Contudo, isso envolve risco, pois, segundo a lei persa, ir ao encontro do rei sem um pedido oficial poderia resultar em pena de morte. Em um momento crucial da história, Mardoqueu afirma que, se Ester permanecer em silêncio, "a libertação dos judeus surgirá de outro lugar". Em seguida, ele diz: "Quem sabe, talvez você tenha se tornado rainha justamente para este momento!" Ester responde com bravura: "Se eu perecer, perecerei", e decide se aproximar do rei.
Logo depois, vemos uma reversão irônica de todos os planos malignos de Hamã. Ester recebe o rei e Hamã em um banquete, onde faz um pedido especial para que ambos participem de um banquete ainda mais exclusivo no dia seguinte. Hamã sai do banquete bastante embriagado e satisfeito consigo mesmo, e encontra Mardoqueu na rua. Ao ver que Mardoqueu não se ajoelha, Hamã se enfurece e manda erguer uma estaca alta, planejando empalar Mardoqueu pela manhã.
Parece que as coisas não podem ficar piores para os judeus ou para Mardoqueu. Mas, de repente, a história tem uma reviravolta no capítulo 6. Naquela noite, o rei não consegue dormir, então ordena que leiam para ele os anais reais. Ele acaba ouvindo sobre como Mardoqueu salvou a vida do rei da trama dos guardas. O rei havia se esquecido completamente disso! Então, na manhã seguinte, quando Hamã vai pedir a execução de Mardoqueu, o rei determina que ele o honre diante de todos por ter salvado sua vida. Assim, Hamã é obrigado a levar Mardoqueu pela cidade montado em um cavalo real. Essa reviravolta marca um ponto de virada na história, começando com a queda de Hamã e terminando com a ascensão de Mardoqueu ao poder.

Ester 7-8: a queda de Hamã e a libertação do povo judeu
No dia seguinte, Ester organiza o segundo banquete (cap. 7). O rei e Hamã chegam, e Ester revela ao rei sua identidade judaica. Em seguida, ela revela que o decreto de Hamã faz parte de um plano para assassinar a ela e a Mardoqueu, o homem que salvou a vida do rei! Depois de beber muito vinho e ouvir as notícias de Ester, o rei é tomado por um acesso de fúria embriagada (repare quantas vezes isso ocorre na narrativa) e ordena que Hamã seja empalado na estaca que ele preparou para Mardoqueu. É uma forma irônica e horrível de morrer.
Mas a execução de Hamã não resolve o problema do decreto de matar todos os judeus. Assim, a atenção volta-se para Mardoqueu e Ester, que elaboram um plano para reverter o decreto. Ao descobrirem que o rei não pode revogar um decreto que já foi emitido, Mardoqueu recebe a incumbência de publicar um contra-decreto. No dia em que todo o povo judeu seria morto, agora eles podem se defender e derrotar aqueles que planejavam matá-los. Depois disso, Mardoqueu, Ester e o povo judeu em todos os lugares organizam banquetes e festas para celebrar o novo decreto. E o mais surpreendente nisso tudo é que Mardoqueu é colocado em um lugar de destaque junto ao rei. Quem previu isso acontecer?!
Ester 9-10: o triunfo do povo judeu
Chega finalmente o dia marcado pelo decreto, e os judeus triunfam sobre seus inimigos. Primeiro, eles destroem a família de Hamã, juntamente com quaisquer outros oficiais persas que haviam participado de sua conspiração. No dia seguinte, o povo judeu recebe permissão para destruir todos que conspiraram contra eles. Em seguida, o povo celebra com grande alegria por ter sido resgatado da aniquilação.
A narrativa então conta como Ester e Mardoqueu estabelecem outro decreto. Essa grande reviravolta e resgate será lembrada em um festival anual de dois dias chamado Purim, em referência aos dados de Hamã. O livro conclui com um breve epílogo. Mardoqueu assume a posição de vice-rei, e a narrativa destaca sua majestade e prestígio enquanto o povo judeu vive em prosperidade no exílio.
A estrutura e a mensagem do livro de Ester
Agora, se olharmos para o livro como um todo, podemos ver como a narrativa foi cuidadosamente elaborada. A história está repleta de momentos com reviravoltas irônicas, mas repare como todo o livro é estruturado como uma grande reviravolta, até nos mínimos detalhes.
O esplendor do rei, os banquetes e os decretos do capítulo 1 correspondem ao esplendor, banquetes e decretos de Mardoqueu no capítulo 10. Ester e Mardoqueu salvaram o rei no capítulo 2 e, no final, salvaram todo o povo judeu no capítulo 9. A ascensão, os éditos e o banquete de Hamã com o rei no capítulo 3 são revertidos pela ascensão, édito e banquete de Mardoqueu no capítulo 8.
Observe também como as duas cenas de planejamento de Ester e Mardoqueu (cap. 4 e 8) e os dois banquetes especiais de Ester (cap. 5 e 7) formam uma moldura em torno da maior reviravolta de toda a história, isto é, a humilhação de Hamã e a exaltação de Mardoqueu (cap. 6).
Outra característica fascinante do livro é a ambiguidade moral dos personagens. A narrativa envolve muita bebida, raiva, sexo e assassinato, e Mardoqueu e Ester participam de pelo menos alguns desses acontecimentos. Também chama atenção o fato de que violam vários mandamentos da Torá, como se casar com gentios ou comer comidas consideradas impuras. E assim, a história não parece apresentá-los como exemplos morais impecáveis, nem endossa todo o seu comportamento. Porém, eles são apresentados como modelos de confiança e esperança em meio a circunstâncias aterrorizantes.
Na verdade, esse foco em Mardoqueu e na esperança de Ester nos remete à característica curiosa deste livro, qual seja, o fato de que Deus nunca é mencionado. Quando o povo de Deus está no exílio, incapaz de obedecer perfeitamente à Torá, e quando Deus parece ausente, isso significa que Deus desistiu de Israel? Ele abandonou suas promessas?
O livro de Ester diz que não.
A história nos convida a ver que Deus pode e trabalha em meio à confusão e à ambiguidade moral da história humana, usando a fidelidade de pessoas que são até mesmo moralmente falhas para alcançar seus propósitos.
O livro de Ester nos convida a confiar na providência de Deus, mesmo quando não conseguimos percebê-la em ação. Isso requer uma postura de esperança para acreditar que, independentemente da gravidade das circunstâncias, Deus trabalha para redimir seu mundo bom e derrotar o mal. É disso que se trata a história de Ester.

