Salmos
Sobre

Salmos é uma coletânea de 150 poemas, cânticos e orações da antiga tradição hebraica, provenientes de diferentes períodos da história de Israel. Desses salmos, 73 estão ligados ao rei Davi, que era poeta e harpista (1Sm 16; 2Sm 23). Também houve muitos outros autores envolvidos. Asafe escreveu doze poemas, os filhos de Corá produziram onze, e outros líderes de adoração no templo também contribuíram (Hemã e Etã escreveram um poema; veja 1Cr 15:17-19). Dois poemas estão ligados ao rei Salomão e outro a Moisés. Quase um terço dos poemas (49, para ser exato) são anônimos.
Muitos desses poemas foram usados pelos coros do templo de Israel (1Cr 25; Ne 11:22-23), mas o livro dos Salmos não é, na verdade, um hinário. No período após o exílio de Israel na Babilônia, esses cânticos antigos foram reunidos com muitos outros poemas hebraicos e organizados intencionalmente no livro dos Salmos. A obra toda possui uma estrutura e uma mensagem próprias, que só podem ser notadas quando se faz a leitura completa, do começo ao fim.
A estrutura geral do livro dos Salmos
Para enxergar a estrutura do livro como um todo, pode ser bastante útil começar pelo final. O livro conclui com cinco poemas de louvor ao Deus de Israel (Sl 146-150), sendo que cada um deles começa e termina com a palavra "aleluia". Em hebraico, esta palavra é um mandamento dizendo às pessoas para que "Louvem Yah", que é uma abreviação do nome divino, Yahweh. Esta conclusão organizada em cinco partes parece muito intencional e convida a questionar se outras partes deste livro também foram elaboradas desta forma.
Se prestarmos muita atenção aos títulos dos poemas, notaremos que os tradutores da Bíblia incluíram os títulos “Livro Um” até “Livro Cinco” em cinco lugares distintos. Todo o livro dos Salmos foi dividido em cinco livros ou seções (Sl 3-41; Sl 42-72; Sl 73-89; Sl 90-106 e 107-145). A razão para essas divisões é que cada seção tem um poema final, que conclui com uma frase semelhante que parece ter sido acrescentada pelo editor: "Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, para todo o sempre. Amém e Amém (Sl 41:13; Sl 72:19; Sl 89:52 e 106:48).
Salmos 1-2: introdução aos temas centrais de Salmos
O livro tem uma conclusão e uma organização interna de cinco seções. Os Salmos 1 e 2 servem como a introdução do livro. Esses salmos se destacam claramente do restante do Livro Um devido à sua autoria. Eles são anônimos, ao contrário da maior parte dos salmos do primeiro livro, que estão ligados ao rei Davi. O conteúdo também é singular. O Salmo 1 começa celebrando a pessoa que é "bem-aventurada" por meditar na Torá, lê-la em oração e obedecê-la. A palavra em hebraico torah significa simplesmente "ensinamento", mas também se refere aos cinco primeiros livros da Bíblia que contêm as leis fundamentais do judaísmo. Parece que a palavra tem esses dois significados no Salmo 1. O livro dos Salmos está sendo oferecido como uma nova Torá que ensinará ao povo de Deus sobre a prática da oração ao longo da vida, enquanto eles se esforçam para obedecer aos mandamentos da primeira Torá.
O Salmo 2 é uma reflexão poética sobre a promessa de Deus ao rei Davi, contada em 2Samuel 7. Deus disse a Davi que de sua linhagem viria um rei messiânico (ou seja, "ungido"), que estabeleceria o reino de Deus sobre o mundo, derrotando o mal e a rebelião entre as nações. O salmo conclui dizendo que todos os que buscarem refúgio neste rei messiânico serão "abençoados", a mesma palavra usada na abertura do Salmo 1.
Juntos, esses dois poemas nos informam que o livro dos Salmos foi elaborado para ser o livro de orações do povo de Deus, que se esforça para ser fiel aos mandamentos da Torá, aguardando e desejando o reino messiânico.
Salmos 3-41: o fundamento da fidelidade à aliança
Com esses temas introduzidos, podemos começar a enxergar a intencionalidade de como os livros menores foram elaborados em torno das mesmas ideias. O Livro Um, por exemplo, contém uma coletânea de poemas (Sl 15-24) que começa e termina com um chamado à fidelidade à aliança. O Salmo 15, que é o salmo de abertura, é seguido por três poemas (Sl 16-18) que retratam Davi como um modelo dessa fidelidade, clamando a Deus por libertação e sendo recompensado e elevado como rei. Esses três salmos têm um par simétrico em Salmos 20-23, onde o Davi do passado se torna uma imagem idealizada do futuro rei messiânico, que pedirá libertação a Deus e será recompensado com um reino sobre todas as nações. E o centro desta coletânea é o Salmo 19, um poema dedicado ao louvor a Deus pela dádiva da Torá. Este é um ótimo exemplo em que vemos que os dois temas dos Salmos 1 e 2 emergem com clareza intencional.

Salmos 42-72: esperança para o reino messiânico
O Livro Dois (Sl 42-72) começa com dois poemas unidos pela esperança de um retorno ao templo em Sião (Sl 42-43), uma imagem intimamente associada à esperança do reino messiânico. O segundo livro se encerra com um poema correspondente que descreve o reinado futuro do rei messiânico sobre todas as nações (Sl 72). Este poema ecoa muitas outras passagens nos Profetas sobre o reino messiânico (Is 11, 45, 60; Zc 9) e conclui dizendo que o reinado deste rei trará o cumprimento da promessa de Deus a Abraão, trazendo a bênção de Deus a todas as nações (Sl 72:17; veja Gn 12:3; Gn 22:17-18).
Salmos 73-89: esperança messiânica pós-exílica
O terceiro livro (Sl 73-89) também termina com um poema que reflete sobre a promessa de Deus a Davi (Sl 89), mas desta vez à luz da tragédia do exílio de Israel. O poeta lembra que Deus disse que nunca abandonaria a linhagem de Davi. Mas como essa promessa se alinha com a destruição de Jerusalém e a queda da linhagem de Davi? O poema conclui (Sl 89:49-51) pedindo a Deus que se lembre de sua aliança com Davi e perdoe seu povo.
Salmos 90-106: o Deus de Israel como o rei de toda a Criação
O Livro Quatro (Sl 90-106) foi elaborado para responder a essa crise. No poema de abertura, retornamos às raízes de Israel com uma oração de Moisés (Sl 90), na qual ele implora a misericórdia de Deus depois do incidente do bezerro de ouro. A seção central do quarto livro é dominada por um grupo de orações (Sl 93-99) que anunciam o Senhor Deus de Israel como o verdadeiro rei de toda a Criação. As árvores, montanhas e rios são convocados a celebrar o dia futuro em que Deus trará sua justiça e seu reino restauradores sobre todo o mundo.
Salmos 107-150: cânticos de peregrinação e poemas de louvor
O Livro Cinco (Sl 107-145) começa com uma série de poemas (Sl 107-110) que afirmam que Deus ouve os clamores de seu povo e um dia enviará o futuro rei para derrotar o mal e trazer seu reino. Ele também contém dois volumes maiores chamados de "Hallel" (Sl 113-118) e "Cânticos de Peregrinação" (Sl 120-136), e ambos terminam com poemas sobre a esperança do reino messiânico (Sl 118 e 132). Entre esses dois conjuntos encontra-se o Salmo 119, o poema mais longo do livro dos Salmos. Ele é composto na ordem do alfabeto hebraico e explora a maravilha e a beleza da Torá como a palavra de Deus a seu povo. Vemos que os temas da Torá e da esperança messiânica nos Salmos 1 e 2 estão combinados aqui no Livro Cinco.
Isso nos conduz novamente à conclusão do livro dos Salmos, formada pelos últimos cinco poemas. No centro, o Salmo 148 diz que toda a Criação é convocada a louvar o Deus de Israel porque ele "ergueu a trombeta para seu povo" (Sl 148:14). Essa metáfora tem a ver com um chifre de touro que é erguido como sinal de vitória. A imagem remete à mesma metáfora usada no cântico de Ana (1Sm 2:10) e anteriormente em Salmos 132:17. O poder, simbolizado como chifre em algumas versões, representa o rei messiânico e sua vitória sobre o mal, uma conclusão adequada para este livro.

Poemas de lamento e louvor no livro dos Salmos
Há um aspecto do livro dos Salmos que é fácil perder de vista caso não se leia na ordem correta. Embora existam muitos tipos diferentes de poemas no livro, todos eles podem ser classificados em duas categorias maiores: lamento ou louvor. Poemas de lamento expressam a dor, a confusão e a ira dos poetas diante dos horrores que os cercam ou que acontecem a eles mesmos. Eles chamam a atenção para o que está errado no mundo e pedem a Deus que faça algo a respeito. Há muitos desses poemas de lamento presentes no livro, o que mostra que esta é uma resposta apropriada ao mal e à tragédia que vemos no mundo. O lamento desempenha um papel importante em nossa jornada de oração.
Embora esses poemas de lamento constituam grande parte dos Livros Um a Três, é possível ver que poemas de louvor também são ocasionalmente incluídos. São poemas de alegria e celebração que chamam a atenção para o que é bom no mundo, recontam histórias do que Deus fez na vida de seu povo e agradecem a ele por isso. Nos Livros Quatro e Cinco, há mais salmos de louvor do que de lamento, culminando na conclusão de cinco partes com aleluias.
Essa transição do lamento para o louvor é significativa e nos ensina algo sobre a natureza da oração segundo esta nova Torá. Esperar pelo reino messiânico cria tensão ao ver o estado trágico de nosso mundo. Os salmos nos ensinam a não ignorar nossa dor nem deixar que ela determine o significado de nossas vidas. A fé e a oração bíblicas são sempre voltadas para o futuro, esperando o dia em que Deus cumprirá suas promessas, louvando-o por isso antecipadamente. Torá e messias, lamento e louvor, fé e esperança: é disso que se trata o livro dos Salmos.

