1Pedro
Sobre

Pedro se chamava Simão quando se tornou um dos primeiros seguidores de Jesus e parte do círculo interno dos doze discípulos. Quando ele fez sua confissão de que Jesus era o Messias (Mt 16:18-19), Jesus mudou seu nome para Cefas, uma palavra aramaica que significa "rocha", que mais tarde seria traduzida para o grego como Petros, ou Pedro. Jesus prometeu que Pedro se tornaria um líder entre os apóstolos para guiar a comunidade messiânica em Jerusalém durante seus primeiros anos. Se olharmos para Atos 1-10, podemos ver como essa promessa se cumpriu.
Pedro foi chamado a levar as boas novas de Jesus além das fronteiras de Israel e, depois de décadas de ministério no mundo romano, escreveu esta carta. Na conclusão da carta, descobrimos que Pedro está em Roma (embora ele a chame de Babilônia), e descobrimos que, embora Pedro tenha encomendado a carta, ela foi composta por seu colega de trabalho Silvano (1Pe 5:12-13).
Esta foi uma mensagem enviada a várias comunidades da igreja na província romana da Ásia Menor (atual Turquia). Pedro soube que esses cristãos, em sua maioria não judeus, estavam sendo perseguidos e enfrentando hostilidade e assédio por parte dos gregos e romanos (1Pe 2:12; 3:16; 4:16). Pedro escreveu para encorajá-los em seu sofrimento, e esse contexto nos ajudará a entender a estrutura e os temas principais da carta.
A carta começa com uma saudação em 1Pedro 1:1-2 e, em seguida, passa para um cântico poético de louvor a Deus (1Pe 1:3-12). Este poema apresenta os principais temas desenvolvidos nos três movimentos seguintes, nos quais ele afirma a nova identidade familiar desses cristãos (1Pe 1:13-2:10), ajuda-os a enxergar o sofrimento como uma forma de testemunhar Jesus (1Pe 2:11-4:11) e os encoraja a fixar sua esperança na futura volta de Jesus (1Pe 4:12-5:11).
1 Pedro 1:1-12: cristãos gentios como exilados escolhidos
Pedro começa cumprimentando essas igrejas como o povo "escolhido" de Deus que está "exilado" pelo mundo (1Pe 1:1). Embora ele deixe claro que esses cristãos são gentios (1Pe 1:14; 1Pe 1:18; 4:3-4), Pedro continua a descrevê-los com linguagem do Antigo Testamento sobre o povo que Deus “escolheu” (Gn 18:19; Is 41:8), a família que se origina de Abraão, que era um “exilado e peregrino” (Gn 23:4). Esta é uma estratégia importante que Pedro repete ao longo de toda a carta. Ele quer que esses cristãos gentios sofredores vejam que, por meio de Jesus, agora pertencem à família de Abraão e são exilados errantes, assim como ele. Tal como seus ancestrais espirituais, eles provavelmente serão incompreendidos e maltratados enquanto esperam por seu verdadeiro lar na terra prometida.

Essa ideia é encontrada no cântico de abertura (1Pe 1:3-12). Ele louva a Deus por fazer com que as pessoas "nasçam de novo para uma esperança viva" por meio da ressurreição de Jesus e do poder do Espírito. Deus está convidando todas as pessoas para uma nova família centrada em Jesus, uma família que tem uma nova identidade como filhos amados de Deus e uma nova esperança de um mundo renascido pelo amor de Deus quando Jesus retornar como rei. Para pessoas que têm essa esperança, o sofrimento e a perseguição podem ser vistos como um presente estranho. O sofrimento apaga falsas esperanças e distrações como um fogo purificador e nos lembra de nosso verdadeiro lar. Portanto, paradoxalmente, as dificuldades da vida podem realmente aprofundar nossa fé e torná-la mais genuína. A partir daqui, Pedro avança para o corpo da carta e explora essas ideias com maior profundidade.
1 Pedro 1:13-2:10: a nova identidade da família de Jesus
Pedro primeiro desenvolve o tema da nova identidade familiar (1Pe 1:13-2:10), pegando imagens memoráveis do Antigo Testamento sobre a família de Israel e aplicando-as a esses cristãos gentios. Assim como os israelitas que saíram do Egito, eles devem "cingir as costas" (1Pe 1:13; Êx 12:11) e deixar sua vida anterior para trás rumo a um novo futuro. Eles são o "povo santo" de Deus que viaja pelo deserto (1Pe 1:15-16; Lv 11:44), bem como o povo do novo êxodo, que foi redimido pelo sangue de Jesus, o cordeiro pascal supremo (1Pe 1:17-21; Êx 12-15). Eles são o povo da nova aliança que tem a palavra de Deus enraizada dentro de si, restaurando seus corações e mentes (1Pe 1:22-25; Is 40:6-8; Jr 31:31-34). Por fim, eles são o novo templo construído sobre o fundamento do próprio Jesus (1Pe 2:1-8; Is 28:16; Sl 118:22), e eles são o novo reino de sacerdotes que servem a Deus como seus representantes diante das nações (1Pe 2:9-10; Êx 19:4-6; Is 43:21).
1 Pedro 2:11-4:11: o sofrimento como uma maneira de dar testemunho de Jesus
Ao aplicar todas essas imagens a cristãos gentios perseguidos, Pedro coloca seu sofrimento no contexto de uma nova história. Isso nos leva à próxima seção (1Pe 2:11-4:11), onde a perseguição deles pode, na verdade, ajudar a esclarecer sua missão no mundo. Eles são chamados a dar testemunho da misericórdia de Deus entre as nações. Pedro primeiro os encoraja a se submeter ao governo romano, mesmo que ele seja opressor (1Pe 2:13-17). Embora a perseguição e o sofrimento sejam realmente injustos, resistir com violência não resolverá nada e trairá os ensinamentos de Jesus, que amou seus inimigos em vez de matá-los.
Pedro então destaca especificamente a situação difícil que os cristãos escravizados e suas esposas enfrentavam quando viviam em famílias patriarcais romanas que não seguiam Jesus (1Pe 2:18; 3:7). Pedro estava bem ciente de que prestar lealdade a Jesus geraria suspeitas, pois esperava-se que todos os membros da família se submetessem e adorassem os deuses do patriarca. Embora todos os cristãos, incluindo esposas romanas e escravos, tenham sido plenamente libertos por Jesus, eles não devem expressar essa liberdade por meio de rebelião. Em vez disso, eles devem resistir ao mal da mesma maneira que Jesus, mostrando amor e generosidade a seus inimigos. É isso que Pedro chama essas esposas e escravos a fazerem também. Entretanto, a situação é outra nos lares onde o marido é cristão. Esses maridos deveriam tratar suas esposas de maneira totalmente diferente dos romanos, considerando-as como iguais diante de Deus e dignas de honra e respeito.
Pedro tem esperança de que essa imitação do amor de Jesus e do reino invertido dê poder às palavras deles, à medida que testemunham a misericórdia de Deus e mostram às pessoas a bela verdade sobre o caminho de Jesus. No entanto, Pedro também é realista. Ele sabe que esses cristãos continuarão a ser perseguidos, por isso ele os lembra de sua vindicação futura (1Pe 3:8-4:11). Ele lembra como o próprio Jesus foi injustamente perseguido e assassinado por poderes humanos corruptos. Mas, na realidade, ele morreu pelos pecados de seus inimigos, foi justificado e recebeu vida ressurreta pelo Espírito. Foi então que ele foi exaltado como rei sobre todos os poderes humanos e espirituais.

Pedro continua mostrando como o batismo aponta para a mesma vindicação futura dos seguidores perseguidos de Jesus. Assim como Noé, eles foram salvos através das águas, não como um ritual mágico, mas como um símbolo sagrado que mostra sua mudança de coração e seu desejo de se unirem a Jesus em sua morte e ressurreição. Portanto, mesmo que sejam mortos por seguir Jesus, sua esperança é na vindicação e exaltação futuras ao seu lado.
1 Pedro 4:12-5:14: esperança pelo retorno de Jesus
À medida que avançamos para o movimento final (1Pe 4:12-5:11), Pedro lembra as palavras de Jesus de que seus discípulos deveriam considerar uma honra e uma alegria ser perseguidos como ele foi (1Pe 4:12-19; Mt. 5:11-12). Pedro então chama os líderes da igreja a cuidarem desses cristãos sofredores (1Pe 5:1-5), mostrando o mesmo tipo de liderança servidora que Jesus mostrou a seus seguidores. Por fim, Pedro lembra esses cristãos do verdadeiro inimigo que estão enfrentando. Essa hostilidade não é apenas cultural ou política; há forças obscuras do mal espiritual em ação, que inspiram ódio e violência (1Pe 5:6-9). Eles devem resistir a esse mal, permanecendo fiéis a Jesus e aos seus ensinamentos, antecipando seu retorno e vitória final.
Pedro conclui 1Pedro 5:10–14 com uma oração, pedindo força divina, e encerra com saudações da igreja em Roma, a quem ele se refere como Babilônia. Pedro está adotando aqui a tradição dos profetas do Antigo Testamento, para os quais o nome "Babilônia" se tornou um arquétipo de qualquer nação corrupta (Jr 50-51). Roma se tornou a nova Babilônia e o império onde o povo de Deus é exilado de seu verdadeiro lar na Criação renovada.
A primeira carta de Pedro é um poderoso lembrete da esperança cristã em meio ao sofrimento. O povo de Deus tem sido uma minoria incompreendida desde o início. Eles devem esperar hostilidade, pois vivem sob o governo de um rei diferente, que é Jesus. No entanto, a perseguição pode se tornar um presente estranho para os seguidores de Jesus, oferecendo a eles a oportunidade de mostrar aos outros a surpreendente generosidade e o amor de Jesus.

