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Romanos

Sobre

Romanos 1-4
7:47
Panoramas do Novo Testamento
Romanos 1-4

O livro de Romanos é um dos escritos mais longos e mais importantes do apóstolo Paulo, antes conhecido como Saulo de Tarso. Paulo foi um rabino judeu que fazia parte de um grupo chamado fariseus e se dedicou com zelo à prática da Torá de Moisés e das tradições de Israel. Ele via Jesus e seus seguidores como uma ameaça a essas tradições, por isso ele os perseguiu. No entanto, sua vida mudou quando ele teve um encontro radical com o próprio Jesus ressurreto. Paulo foi encarregado de se tornar um apóstolo de Jesus, um representante oficial dos não judeus (ou gentios) no mundo.

Como parte dessa nova vocação, ele começou a usar seu nome romano, Paulo, e viajou pelo antigo império romano contando às pessoas sobre o rei Jesus ressurreto. Esses novos convertidos formavam comunidades chamadas igrejas, e Paulo ocasionalmente escrevia cartas a essas igrejas para fomentar sua fé, abordar problemas específicos ou responder a perguntas. O livro de Romanos é uma dessas cartas escritas mais tarde em sua carreira.

Contexto do livro de Romanos

Sabemos por Atos 18:1-2 que a igreja em Roma existia há algum tempo e era composta por seguidores judeus e não judeus. A crise para esta igreja começou quando o imperador romano Cláudio expulsou todo o povo judeu de Roma. Cerca de cinco anos depois, todos esses judeus, incluindo muitos que seguiam Jesus, foram autorizados a retornar. Quando voltaram, perceberam que a igreja tinha assumido costumes e práticas predominantemente não judaicas. Esse choque cultural criou muita tensão e, nos dias de Paulo, a igreja romana estava dividida. Eles discordavam sobre como seguir Jesus, debatendo se os cristãos não judeus deveriam ou não observar o sábado, comer alimentos kosher, ser circuncidados e assim por diante.

Paulo escreveu essa carta para alcançar alguns objetivos específicos. Ele queria que esta comunidade dividida se unisse novamente. Em termos práticos, ele desejava que a igreja romana se tornasse uma base de apoio para que ele avançasse ainda mais em sua missão rumo ao oeste, alcançando a Espanha. Essas circunstâncias tensas motivaram Paulo a escrever sua explicação mais completa do evangelho, que são as boas novas que anunciam a vida, a morte e a ressurreição de Jesus.

Embora a carta tenha sido elaborada para ter quatro movimentos principais, ela também é unificada como uma longa e contínua reflexão sobre o evangelho, que "revela a justiça de Deus" (Rm 1-4), "cria uma nova humanidade" (Rm 5-8) e "cumpre a promessa de Deus a Israel" (Rm 9-11). Como resultado, apenas esse evangelho pode "unificar a Igreja" (Rm 12-16).

Romanos 1-4: o evangelho revela a justiça de Deus

Paulo começa apresentando-se como um apóstolo nomeado por Deus para espalhar o evangelho sobre Jesus (Rm 1:1-17). Esta é a mensagem que anuncia que Jesus é o Messias de Israel, que ressuscitou dos mortos como o Filho de Deus e é o rei das nações. Por isso, Jesus agora chama toda a humanidade a estar sob seu governo amoroso. Paulo diz que essas boas novas sobre Jesus são o poder de Deus para salvar as pessoas que confiam nele e e que "revelam a justiça de Deus".

Para Paulo, "justiça" é uma palavra muito rica que é utilizada nas Escrituras hebraicas para descrever o caráter de Deus. Isso significa que Deus sempre age de uma maneira que é justa e correta e que ele é fiel e justo para cumprir suas promessas. Paulo está dizendo que a história de Jesus mostra como Deus fez essas duas coisas.

Em Romanos 1:18-32, Paulo retoma uma longa e criativa narrativa de Gênesis 3-11, mostrando como o mundo gentio, todas as nações, ficaram presas em um ciclo de pecado e egoísmo. O coração e a mente humanos estão corrompidos. Nos afastamos de Deus e caímos na idolatria, buscando significado último nas coisas criadas e entregando nossa lealdade ao que não é Deus. Isso provoca uma distorção da nossa humanidade e gera comportamentos destrutivos. O que resta é uma humanidade que se apresenta culpada diante de um Deus justo e reto.

Diante disso, os companheiros israelitas de Paulo poderiam responder: "É bom que Deus tenha escolhido nosso povo entre as nações. Ele nos salvou da escravidão no Egito e nos deu as leis da Torá, como a observância do sábado, a alimentação kosher ou a circuncisão. Todas essas coisas nos mostram como viver como o povo santo de Deus."

Paulo responde: "Não tão rápido!" Ele lembra a história da Torá e do restante do Antigo Testamento, que mostram que Israel era tão pecaminoso, idólatra e moralmente corrompido quanto o resto da humanidade. Na verdade, Israel é mais culpado do que os gentios, porque eles têm a Torá e deveriam ter uma compreensão melhor.

Como nosso representante, Jesus assumiu sobre si as justas consequências de toda a dor, pecado e morte causados pelos seres humanos no mundo, e venceu isso por meio de sua ressurreição dentre os mortos. Essa é a nova vida de Jesus que agora é disponibilizada para outros. Jesus se tornou o que somos para que pudéssemos nos tornar o que ele é. Paulo afirma que é por meio de tudo isso que Deus justifica os que confiam ou depositam sua fé em Jesus.

Justificação é outro termo muito rico do Antigo Testamento para Paulo, e está relacionado à justiça de Deus. Significa literalmente "declarar justo". Por causa do que Jesus fez em nosso nome, recebemos um novo status diante de Deus. Em vez de ser considerada culpada, Deus declara que uma pessoa está em um relacionamento justo com ele e é perdoada. Isso resulta em uma nova família, pois uma pessoa que confia em Jesus recebe um lugar entre o povo da aliança de Deus. A justificação também gera um novo futuro, que inicia uma jornada de transformação de vida pela graça de Deus. Todas essas realidades sobre a justificação são o presente de Deus para aqueles que estão em Cristo por causa de sua fé e lealdade a ele.

No capítulo 4, Paulo explora as enormes implicações que tudo isso tem para aqueles que agora podem fazer parte da família da aliança de Deus. Assim, ele dedica sua atenção à história de Abraão em Gênesis 15. Antes que as leis da Torá fossem dadas a Israel, Abraão foi justificado, ou declarado justo, diante de Deus. Deus prometeu que Abraão se tornaria o pai de uma família grande e multiétnica que receberia sua bênção. No entanto, Abraão e Sara eram muito idosos e nunca haviam sido capazes de ter filhos. No entanto, Abraão tinha fé e confiança radicais na promessa de Deus, e Deus o declarou justo (Gn 15:6). A afirmação de Paulo é que a família multiétnica de Abraão agora está se tornando uma realidade por meio de Jesus e seus seguidores. Os descendentes de Abraão estão se espalhando pelo mundo, compostos por judeus e gentios que têm fé naquele que cumpriu as promessas de Deus a Abraão, isto é, Jesus, o Messias.

Antes de passarmos aos capítulos 5-16, vamos parar por um momento e resumir as ideias principais de Paulo nos capítulos 1-4, porque elas são a base para a compreensão do restante da carta. Toda a humanidade está desesperadamente presa no pecado e precisa ser resgatada, mas esse resgate não acontecerá ao tentar obedecer às leis da Torá. O caráter justo de Deus o moveu a resgatar o mundo por meio da morte e ressurreição de Jesus, possibilitando a criação de uma família multiétnica como seu povo.

Agora, Paulo continuará mostrando como esta nova família faz parte de uma história muito maior, que os está chamando a um modo de vida totalmente novo.

Romanos 5-16
9:11
Panoramas do Novo Testamento
Romanos 5-16

Romanos 5-8: o evangelho cria uma nova humanidade

Depois de mostrar como Jesus está formando uma nova família da aliança de pessoas de todas as nações, Paulo continua afirmando que essas pessoas são a nova humanidade que cumpre as promessas de Deus ao antigo Israel, obedecendo à Torá no poder do Espírito.

Paulo começa explorando como a família de Jesus é um novo tipo de humanidade (Rm 5). Ele relembra Adão, o primeiro personagem humano na história bíblica, cujo nome significa "humanidade". Adão e toda a humanidade escolheram o pecado e o egoísmo e, como consequência, enfrentam o juízo de Deus. Eles se tornaram escravos da influência do pecado, resultando em morte. Paulo então contrasta Adão com Jesus, o "novo Adão", um ser humano que viveu em obediência fiel a Deus através de seu ato de amor sacrificial. Jesus oferece sua vida como um presente às outras pessoas para que elas possam ser justificadas diante de Deus. Agora Jesus é o cabeça de uma nova humanidade que está sendo transformada pelo mesmo presente.

Isso nos leva diretamente ao capítulo 6, onde Paulo lembra aos cristãos em Roma que escolher seguir Jesus significa deixar para trás sua antiga humanidade semelhante a Adão e entrar no novo estilo de humanidade de Jesus. O sinal físico sagrado dessa transição era a imersão no batismo. A antiga humanidade morreu com Jesus quando eles entraram na água, mas sua nova humanidade ressuscitou com ele dentre os mortos quando saíram da água. Quando uma pessoa confia em Jesus, sua vida se une à dele, e o que é verdadeiro para ele passa a ser verdadeiro para ela. Quando as pessoas aceitam sua identidade como novos humanos semelhantes a Jesus, elas são libertas para se tornarem pessoas sinceras que podem amar a Deus e ao próximo.

Agora, se Deus sempre teve o propósito de criar essa nova humanidade, questiona Paulo no capítulo 7, qual o sentido de ele ter dado a lei a Israel (ou, em hebraico, a Torá)? Paulo diz que os mandamentos na Torá eram bons e mostravam a vontade de Deus sobre como Israel deveria viver. No entanto, se lermos o enredo da Torá, Israel descumpriu todos os seus mandamentos.

Quanto mais leis Israel recebia, mais eles repetiam o pecado de Adão em rebelião. Mesmo quando Deus deu ao povo regras específicas a serem obedecidas, isso não resolveu o problema do coração humano pecaminoso. Assim, paradoxalmente, as leis da Torá aumentaram ainda mais a culpa de Israel. Mas Paulo diz que esse paradoxo era justamente o objetivo. O propósito de Deus era deixar claro que o mal havia sequestrado o coração humano, e a Torá, por mais boa que fosse, não poderia fazer nada a respeito disso.

No capítulo 8, no entanto, Paulo diz que a solução chegou através de Jesus e do Espírito Santo. Os mandamentos da Torá agiam como uma lupa, concentrando o problema da condição humana em um só lugar: Israel. Mas agora o representante de Israel, Jesus, o Messias, pagou e lidou com todo o pecado através de sua morte e ressurreição. Ele enviou seu Espírito para sua nova família a fim de transformar seus corações, para que eles pudessem verdadeiramente cumprir o chamado supremo de todos os mandamentos da Torá, que é amar a Deus e ao próximo. A renovação dos seres humanos por Deus é o primeiro passo em sua missão maior de resgatar e renovar toda a Criação, tornando-a um lugar onde seu amor tem a palavra final.

Embora os capítulos 1-8 expliquem como o propósito eterno de Deus foi cumprido por meio de Jesus, ainda resta a questão sobre a situação dos israelitas que não reconhecem Jesus como seu Messias. Como esta história cumpre as promessas antigas de Deus a eles?

Romanos 9-11: o evangelho cumpre a promessa de Deus a Israel

Paulo começa o capítulo 9 com sua própria angústia pelos compatriotas israelitas que não acreditam que Jesus seja seu Messias. Em seguida, ele reflete sobre o Israel do passado e o Antigo Testamento. Paulo recorda que o simples fato de ser israelita étnico, descendente de Abraão, nunca garantiu que alguém automaticamente se tornasse um membro fiel da família da aliança de Deus. Paulo nos mostra como Deus sempre escolheu um grupo específico da linhagem de Abraão para dar continuidade à linhagem da promessa. Paulo quer mostrar que a linhagem da promessa continua por meio daqueles que seguem Jesus. Ele nos lembra que, durante muito tempo, as pessoas dentro e fora da família de Abraão rejeitaram a vontade de Deus. Paulo lembra a história de Israel e do bezerro de ouro, bem como a rebelião do faraó, mostrando como Deus foi capaz de orquestrar eventos para que a rejeição do povo realmente cumprisse seus próprios propósitos redentores.

No capítulo 10, Paulo dirige sua atenção para o Israel do presente. A razão pela qual tantos israelitas rejeitam Jesus é que eles fundamentam seu relacionamento com Deus no seu desempenho em cumprir os mandamentos da Torá. Infelizmente, eles não reconhecem o que Deus fez através de Jesus para criar a família da nova aliança.

Em Romanos 11, Paulo aborda a questão de como será Israel no futuro. Será que Deus rejeitará o seu próprio povo? Paulo afirma que não. Existem muitos judeus, ele incluso, que aceitaram Jesus como Messias, mas ainda há muitos outros que não o reconheceram. Deus usou essa rejeição para seus próprios propósitos, pois fez com que o evangelho se espalhasse ainda mais pelo mundo gentio, tornando a família de Abraão ainda maior e multiétnica. Paulo descreve a família da aliança de Deus como uma grande oliveira. Os que rejeitam Jesus são ramos que foram arrancados, enquanto esses gentios são como ramos silvestres que foram enxertados. No entanto, Paulo diz que um dia Jesus será reconhecido por seu próprio povo. Ele não oferece detalhes sobre como isso aconterá, mas simplesmente confia no caráter de Deus e promete que ele não desistirá de seu povo da aliança.

Romanos 12-16: o evangelho unifica a Igreja

Essas ideias fazem a transição para a seção final do livro de Romanos, capítulos 12-16. Por causa de sua fé em Jesus, tanto judeus quanto gentios fazem parte da família de Abraão. Esta nova humanidade está sendo transformada pelo Espírito de Deus e está cumprindo as antigas promessas de Deus. A única resposta razoável a isso é que esses cristãos judeus e não judeus se tornem uma comunidade eclesial unificada.

Nos capítulos 12-13, Paulo nos mostra que essa unidade vem de um compromisso com o amor e o perdão. O amor se manifestará quando todos usarem seus diversos dons e talentos para servir uns aos outros. Unidade também significa humildade e perdão. Quando esses diferentes grupos étnicos e culturas se unem em Jesus, o conflito é inevitável e só pode ser resolvido pelo árduo trabalho do perdão. Tudo isso é a forma como esses crentes demonstram a maior virtude cristã, o amor, que cumpre os maiores mandamentos da Torá de amar a Deus e ao próximo.

Os capítulos 14-15 se concentram nas questões que criam divisões étnicas na igreja, especificamente disputas sobre as leis alimentares judaicas e a observância do sábado (ou Sabbath). Paulo diz que essas práticas não definem quem está dentro ou fora da família de Jesus. Se o povo divergir sobre essas questões culturalmente importantes, mas não essenciais, eles precisam respeitar as diferenças uns dos outros. Dessa forma, o amor é o que cura e une a família de Jesus.

Paulo encerra sua carta primeiro elogiando Febe, uma líder importante da igreja em Cencreia. Ela teve a honra de levar e provavelmente ler esta carta em voz alta às igrejas romanas. Paulo conclui ainda cumprimentando todas as pessoas que não via há algum tempo.

Todos os elementos desta carta se unem para compor uma profunda obra-prima de autoria de Paulo. A carta explicou e serviu para espalhar a mensagem da nova família da aliança de Jesus no primeiro século, e continua a fazer o mesmo em nosso mundo hoje.