Guia de Estudo do BibleProject

Hebreus

Sobre

Hebreus
8:17
Panoramas do Novo Testamento
Hebreus

O autor desta carta é desconhecido, mas há muito tempo se especula se Paulo ou um de seus colegas de trabalho, como Barnabé ou Apolo, a escreveu. Há uma informação interessante sobre o autor em Hebreus 2:3-4. Ali, ele afirma ter tido contato direto com os discípulos que conviveram com Jesus. Portanto, mesmo que não saibamos quem escreveu esta carta, sabemos que ela está ancorada no ensinamento dos apóstolos.

Também não fica claro quem era o público desta carta ou onde eles viviam. O autor, no entanto, os conhece bem e presume que eles têm um conhecimento profundo das Escrituras hebraicas, principalmente da Torá. O autor espera que eles estejam familiarizados com a história da família de Abraão, com todos os detalhes do êxodo, com o que aconteceu no Monte Sinai e com a jornada de Israel pelo deserto. Devido a essa expectativa, é mais provável que esta carta tenha sido escrita a cristãos judeus, o que explica o título da carta: "Aos hebreus".

Hebreus 10:32-34 indica que essa comunidade estava enfrentando perseguição e prisão por causa de sua associação com Jesus, e que alguns membros da comunidade estavam abandonando a fé. Tudo isso explica o propósito e a estrutura da carta. Há uma breve introdução (Hb 1:1-4), acompanhada de quatro seções nas quais o autor compara e contrasta Jesus com pessoas e eventos importantes da história de Israel: os anjos e a Torá (Hb 1-2), Moisés e a terra prometida (Hb 3-4), os sacerdotes e Melquisedeque (Hb 5-7), os sacrifícios e a aliança (Hb 8-10). Depois de todas essas comparações, ele desafia esses cristãos a seguir Jesus, custe o que custar (Hb 11-13).

Ao longo de todas as comparações que compõem o corpo principal da carta, o autor tem dois objetivos principais. Primeiro, ele apresenta Jesus como superior a tudo e a todos, mostrando que ele é digno de plena confiança e devoção. Segundo, ele desafia esses crentes a permanecer fiéis a Jesus, apesar da perseguição. Por isso, cada seção traz um forte alerta para que não abandonem Jesus.

Hebreus 1-2: Jesus em comparação aos anjos e à Torá

A ascensão de Jesus começa imediatamente na frase de inicial da introdução. "No passado, Deus falou a nossos antepassados de muitas maneiras diferentes, mas nestes últimos dias ele falou a nós em seu Filho" (Hb 1:1). O autor está dizendo que Jesus é superior a todas as maneiras pelas quais Deus se revelou a Israel. Ele prossegue fazendo uma afirmação surpreendente de que Jesus é "o resplendor da glória de Deus e a expressão exata da natureza de Deus". Essas expressões utilizadas, "resplendor" e "expressão exata", estabelecem a identificação mais próxima possível entre Jesus e o Deus de Israel. Jesus é o que os raios de luz são para o sol, ou o que a cera é para um anel de sinete. Para este autor, não há Deus além de Jesus. Ele é o único verdadeiro Deus Criador que se tornou humano como o Filho. Essa visão elevada de Jesus é continuamente explorada ao longo de toda a carta.

Os capítulos 1-2 comparam Jesus com anjos, o que pode parecer um pouco estranho. Contudo, a tradição judaica ensinava que a Torá e as palavras de Deus tinham sido entregues a Moisés no Monte Sinai por anjos (Dt 33:2). Portanto, ao dizer que Jesus é superior aos anjos, o autor está afirmando que Jesus e sua mensagem de boas novas são superiores a todos os mensageiros anteriores da palavra de Deus.

O primeiro alerta flui de um ponto importante: se Israel foi chamado a prestar atenção à Torá entregue pelos anjos, nós, mais ainda, devemos prestar atenção à mensagem anunciada pelo Filho de Deus. Além disso, considerando a posição de Jesus acima dos anjos, é surpreendente que ele tenha aberto mão de sua posição para se tornar humano, sofrer e morrer. Em Jesus, vemos a grande glória e humildade de Deus, ao se unir com simpatia ao destino trágico da humanidade.

Hebreus 3-4: Jesus em comparação a Moisés e à terra prometida

Os capítulos 3-4 continuam a argumentar que Jesus é superior a Moisés, que levou Israel pelo deserto e construiu o tabernáculo. Jesus também é um líder do povo de Deus, mas nele vemos o construtor não apenas de uma tenda, mas de toda a Criação. O autor reconta a história de como os israelitas se rebelaram contra Moisés no deserto, perdendo a chance de entrar no descanso oferecido na terra prometida. É a partir desse ponto que surge o segundo alerta. Se Jesus é superior a Moisés, as consequências de nos rebelarmos contra ele, então, são muito mais sérias! Também estamos em um ambiente deserto semelhante, confiando em Deus para o futuro descanso da nova Criação. Devemos ter cuidado para não agir como Israel no deserto, perdendo a graciosa oferta de Deus de entrar nesse novo mundo.

Hebreus 5-7: Jesus em comparação aos sacerdotes e a Melquisedeque

Os capítulos 5-7 comparam Jesus com os sacerdotes de Israel da linhagem de Arão. O papel desses sacerdotes era representar Israel diante de Deus e oferecer sacrifícios que expiavam os pecados do povo. No entanto, esses mesmos sacerdotes eram moralmente falhos, por isso eles constantemente tinham que oferecer sacrifícios por seus próprios pecados e pelos pecados dos outros. Mas era preciso algo mais: um sumo sacerdote supremo capaz de lidar definitivamente com o problema do pecado. O autor diz que Jesus é esse sacerdote, mas ele não veio da linhagem de Arão.

Jesus era um sacerdote da ordem de Melquisedeque, o misterioso rei-sacerdote da antiga Jerusalém que aparece brevemente na história de Abraão (Gn 14). No salmo 110, somos informados que o rei messiânico da linhagem de Davi seria um sacerdote da ordem de Melquisedeque. O ponto é que Jesus é o rei-sacerdote supremo. Ele é moralmente irrepreensível, eternamente disponível para seu povo, e é superior a qualquer outro mediador entre Deus e os seres humanos. Com isso em mente, o autor adverte o povo que rejeitar Jesus é rejeitar a única chance de se reconciliar com Deus.

Hebreus 8-10: Jesus em comparação aos sacrifícios e à aliança

Isso nos leva à última comparação nos capítulos 8-10. O autor mostra como a morte de Jesus na cruz foi o sacrifício supremo, muito superior a qualquer sacrifício de animais oferecido no templo. Esses sacrifícios tinham que ser oferecidos todos os dias e todos os anos no Dia da Expiação. Em contraste, quando Jesus ofereceu sua vida de uma vez por todas, ela foi suficiente para cobrir os pecados do mundo todo. O autor adverte que se afastar de Jesus significa rejeitar a oferta graciosa de perdão de Deus. O sacrifício de Jesus é permanente e age como fundamento para a nova aliança mencionada nos Profetas, na qual todos os pecados são perdoados.

Hebreus 11-13: um encorajamento a permanecer fiel a Jesus

Depois de exaltar Jesus por meio de todas essas comparações, o autor encerra a carta com um grande chamado à perseverança. Diante de tudo o que foi dito sobre Jesus — que ele é a própria palavra de Deus (Hb 1-2), aquele que oferece esperança para a nova Criação (Hb 3-4), o sacerdote eterno (Hb 5-7) e o sacrifício perfeito (Hb 8-10) —, faz todo sentido seguir o exemplo dos grandes homens e mulheres de fé das Escrituras (Hb 11) e permanecer fiel a ele. O autor exorta esses cristãos sofredores a confiar que, apesar das dificuldades e da perseguição, Deus não abandonará seu povo (Hb 12-13).

Vale a pena considerar mais algumas algumas coisas que podem enriquecer sua leitura desta carta. Quando o autor cita o Antigo Testamento, o que acontece em quase toda frase, devemos parar para procurar a referência e ler a citação em seu contexto original. Às vezes, podemos ficar intrigados, mas, na maioria das vezes, vemos conexões adicionais que podem ter passado despercebidas. Vale muito a pena dar esse passo adicional.

E lembre-se de que essas passagens de advertência devem nos deixar um pouco desconfortáveis. Elas não servem para nos assustar, mas para nos mostrar que rejeitar Jesus é tolice. As advertências servem ao propósito maior de mostrar que Jesus é a revelação máxima de Deus.