Habacuque
Sobre

Um aspecto importante da antiga organização da Bíblia hebraica chamada TaNaK é que as doze obras proféticas que vão de Oseias a Malaquias, às vezes chamadas de Profetas Menores, foram elaboradas como um único livro chamado Os Doze. Habacuque é o oitavo livro dos Doze.
Habacuque viveu nas décadas finais de Judá, o reino do sul de Israel. Era um tempo de injustiça e idolatria, e ele via a ameaça crescente do império babilônico no horizonte. Ao contrário dos outros profetas hebreus, Habacuque não acusa Israel e nem mesmo fala ao povo em nome de Deus. Em vez disso, todas as suas palavras são endereçadas a Deus. Este livro nos conta sobre a dificuldade pessoal de Habacuque de acreditar que Deus é bom quando há tanta tragédia e mal no mundo.
Muitas das palavras de Habacuque são, na verdade, poemas de lamento, semelhantes às lamentações no livro dos Salmos. Em um lamento, o poeta apresenta uma queixa para chamar a atenção de Deus para o sofrimento e a injustiça no mundo e, em seguida, exige que Deus faça algo. Ter isso em mente é importantíssimo para entender a estrutura e a mensagem deste pequeno livro. Os capítulos 1 e 2 são estruturados como uma troca de argumentos entre Habacuque e Deus. O profeta apresenta duas queixas (Hc 1:2-4; Hc 1:12-2:1), às quais Deus oferece duas respostas (Hc 1:5-11; Hc 2:2-5).
Habacuque 1-2a: Habacuque lamenta a injustiça de Israel e Deus responde
A primeira queixa de Habacuque, nos versículos 1:2–4, é que a vida em Israel está horrível. A Torá é negligenciada, resultando em violência e injustiça, e tudo isso é tolerado pelos líderes corruptos de Israel. Habacuque clama, pedindo a Deus que faça algo, mas nada muda.
De repente, Deus responde (Hc 1:5-11), dizendo que está ciente da profunda corrupção da aliança entre seu povo e que está convocando os exércitos da Babilônia para trazer justiça sobre a rebeldia de Israel. Semelhante à mensagem de Miqueias e Isaías, Deus diz que usará este império aterrorizante para devorar Israel por causa de sua injustiça e maldade.

Habacuque tem um problema com essa resposta e apresenta uma segunda queixa (Hc 1:12-2:1). A Babilônia, segundo ele, é até pior do que Israel. Eles são ainda mais violentos e corruptos; eles deificaram seu próprio poder militar e tratam os seres humanos como animais, aglomerando-os como peixes em uma rede. Eles devoram nações e povos para expandir ainda mais o seu império. Habacuque pergunta: como um Deus tão santo, bom e justo pode usar pessoas tão corruptas como seus instrumentos na história? Ele exige uma explicação e se apresenta como uma sentinela sobre os muros da cidade, aguardando a resposta de Deus.
Deus pede que Habacuque pegue algumas tábuas e escreva tudo o que vê e ouve, enviando-lhe uma visão sobre um momento específico no futuro que pode demorar, mas que acontecerá. Na esperança apresentada nesta visão, Deus também diz a ele que o "justo viverá pela fé" (Hc 2:4).
Qual exatamente é a promessa divina que Habacuque deve escrever? Deus um dia destruirá a Babilônia, usando o ciclo interminável de vingança e violência criado por nações como ela. O fato de que Deus possa, por um tempo, usar uma nação corrupta como a Babilônia não significa que ele endosse tudo o que fazem. Ele responsabiliza todas as nações perante sua justiça, e a Babilônia cairá junto com qualquer nação que aja como ela.
Habacuque 2b: aflições contra a Babilônia
A promessa de Deus é então detalhada por uma série de cinco "aflições" que descrevem as formas típicas de opressão e injustiça praticadas por nações como a Babilônia. As duas primeiras aflições se concentram em práticas econômicas injustas, como o fato de pessoas ricas cobrarem juros exorbitantes para manter outras pessoas presas em dívidas, aumentando sua própria riqueza por meios desonestos. A terceira aflição é uma crítica ao trabalho escravo e àqueles que tratam os seres humanos como animais, ameaçando-os com violência se não forem produtivos o suficiente. A quarta aflição tem como alvo o abuso do álcool por líderes irresponsáveis. Enquanto outros sofrem sob sua má liderança, eles estão festejando e desperdiçando sua riqueza em sexo e bebida. A última aflição expõe a idolatria que governa essas nações. Eles transformaram o dinheiro, o poder e a segurança nacional em deuses, oferecendo lealdade a eles a todo custo e se tornando escravos de seu próprio império.
Agora, as práticas descritas aqui não são exclusivas da Babilônia, e essa é a ideia principal. Dada a condição humana, a maioria das nações acabará se tornando a Babilônia. A resposta de Deus a Habacuque se torna a resposta de Deus a todas as gerações posteriores, a qualquer um que viva em um mundo governado por outras Babilônias. Isso nos deixa com uma pergunta inquietante: Deus permitirá que esse ciclo continue para sempre, deixando impérios como a Babilônia destruírem uns aos outros e o seu mundo?
Habacuque 3: confiança em Deus e em sua justiça suprema
O último capítulo trata desta pergunta. Ele começa com uma oração de Habacuque, onde o profeta implora a Deus para agir no presente como fez antes, destruindo nações corruptas. "Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras" (Hc 3:2). A seguir temos um poema antigo que apresenta uma poderosa e aterrorizante manifestação de Deus através de nuvens, fogo e terremoto. É muito semelhante aos poemas iniciais de Miqueias e Naum, bem como à aparição de Deus no Monte Sinai em Êxodo 19-20. Quando o Criador aparecer para confrontar o mal humano, isso chamará a atenção de todos.

Habacuque continua descrevendo a derrota futura do mal entre as nações como um êxodo futuro. Assim como Deus veio como um guerreiro e dividiu o mar em sua batalha contra o faraó, Habacuque diz que Deus mais uma vez trará seu juízo sobre o "líder da nação ímpia". Assim como a Babilônia, o faraó também serve como um arquétipo de nações violentas. No entanto, ao confrontar o mal, Deus ao mesmo tempo “salva seu povo e seu ungido” (Hc 3:13), uma referência ao rei vindouro da linhagem de Davi. Neste poema, a história do Êxodo do passado se tornou uma imagem de um êxodo que Deus realizará no futuro. Ele mais uma vez derrotará o mal e destruirá os faraós e as Babilônias do mundo, trazendo justiça a todas as pessoas, resgatando os oprimidos e os inocentes.
É essa promessa que permite que Habacuque termine o livro com um louvor esperançoso. Mesmo que o mundo esteja desmoronando por causa da escassez de alimentos, secas, guerras ou qualquer outra coisa, ele escolherá confiar e se alegrar na promessa da aliança de Deus. No final do livro de Habacuque, o profeta se torna um exemplo brilhante de como "os justos vivem pela fé". Ele reconhece como nosso mundo e nossas vidas podem se tornar sombrias e caóticas, mas também percebe que isso nos convida à jornada da fé, confiando que Deus ama este mundo mais do que podemos imaginar e que um dia ele acabará com todo o mal.

