Filipenses
Sobre

A igreja em Filipos foi a primeira comunidade de Jesus que Paulo fundou no leste da Europa (At 16). Filipos era uma colônia romana na antiga Macedônia, cheia de soldados aposentados e conhecida por seu nacionalismo patriótico. Então, Paulo enfrentou resistência na cidade ao anunciar Jesus como o verdadeiro rei do mundo. Depois que Paulo partiu, aqueles que se tornaram seguidores de Jesus continuaram a sofrer perseguição, mas permaneceram uma comunidade vibrante, fiel ao caminho de Jesus.
Paulo enviou esta carta a eles durante uma de suas muitas prisões, por uma razão muito prática: os filipenses haviam enviado um de seus membros, Epafrodito, para levar um presente em dinheiro para Paulo e apoiá-lo na prisão. Paulo enviou esta carta de volta com Epafrodito para agradecer pelo generoso presente e falar com a comunidade.
A estrutura desta carta não desenvolve uma ideia singular do início ao fim, como acontece em outras cartas de Paulo. Em vez disso, Paulo organizou uma série de ensaios curtos e reflexivos, todos centrados no ponto central da carta, que é o poema do capítulo 2. Ele narra de forma artística a história da encarnação, vida, morte, ressurreição e exaltação do Messias. Paulo aproveita termos e conceitos centrais do poema em cada trecho da carta para demonstrar que viver como cristão é enxergar a própria história como uma manifestação da história de Jesus.
Filipenses 1:1-26: a gratidão de Paulo pelos filipenses
O capítulo 1 começa com uma oração de gratidão, quando Paulo agradece a Deus pela generosidade e fidelidade dos filipenses. Ele expressa sua confiança de que a obra de transformação que Deus começou neles continuará a se transformar em expressões maiores e mais belas de fidelidade e amor.
Paulo volta sua atenção à preocupação óbvia do momento, ou seja, sua situação na prisão. Embora estar em uma prisão romana não seja exatamente divertido, paradoxalmente, isso tem sido benéfico para divulgar as boas novas sobre Jesus. Todos os guardas e administradores romanos sabem que Paulo está na prisão por anunciar Jesus como o Senhor ressurreto. Além disso, sua prisão inspirou confiança em outros cristãos para falar sobre Jesus mais abertamente.
Embora Paulo esteja otimista de que será liberto, ainda é possível que ele seja executado. Ao refletir mais sobre esse fato, ele decide que morrer seria melhor do que viver. "Para mim, a vida é o Messias e, por isso, morrer seria um ganho" (Fp 1:21). Para Paulo, sua vida no presente e no futuro é definida pela vida e pelo amor de Jesus. Se ele for executado, ficará com Jesus, o que será ótimo para ele. Mas se Paulo for liberto, ele poderá continuar trabalhando para iniciar outras comunidades de Jesus, o que será melhor para outras pessoas. Observe seu raciocínio: morrer por Jesus não é o verdadeiro sacrifício para Paulo, mas sim permanecer vivo para servir aos outros. Essa é maneira de Paulo participar da história de Jesus, que sofreu para amar os outros mais do que a si mesmo.
Filipenses 1:27-2:18: imitando Jesus no pensamento e na prática
Paulo volta sua atenção para os filipenses, exortando-os a participar do exemplo de Jesus, adotando a mesma mentalidade. Ele diz a eles que sua "vida como cidadãos deve ser coerente com as boas novas sobre o Messias" (Fp 1:27).
Isso leva Paulo ao grande poema do capítulo 2, que está repleto de referências a textos importantes do Antigo Testamento, principalmente a história de Adão e sua rebelião em Gênesis 1-3, bem como os poemas sobre o servo sofredor em Isaías 45 e 52-53. Vale a pena memorizar este poema; ele é uma versão belamente condensada da história do evangelho.
Antes de se tornar humano, o Messias existiu em um estado de glória igual a Deus (Fp 2:6). Ao contrário de Adão, que tentou alcançar a igualdade com Deus, o Messias escolheu não explorar seu status de igualdade em benefício próprio. Em vez disso, ele se esvaziou de seu status para se tornar um ser humano, um servo de todos. Ele até se permitiu ser humilhado e foi obediente ao Pai, indo à morte em um instrumento de tortura romano. Por meio do poder e da graça de Deus, a morte humilhante do Messias foi revertida pela ressurreição, exaltando Jesus à mais alta posição como rei de todas as coisas. Ele recebeu o nome acima de todos os nomes para que toda a Criação pudesse reconhecer que "Jesus, o Messias, é Senhor, para a glória de Deus Pai".
Esta última afirmação é surpreendente porque Paulo está citando Isaías 45:23, uma passagem na qual toda a Criação reconhece o Deus de Israel como Senhor. O argumento de Paulo é claro: por meio do Jesus crucificado e ressurreto, descobrimos que o único e verdadeiro Deus de Israel é composto por Deus Pai e o Senhor Jesus. Para Paulo, este poema expressa suas convicções sobre quem é Jesus, mas vai além disso. O poema oferece o exemplo de Jesus como um estilo de vida que seus seguidores devem imitar.

Filipenses 2:19-30: vivendo a história de Jesus
Paulo dá continuidade a essa ideia de imitar Jesus apresentando duas histórias sobre Timóteo e Epafrodito, porque eles são exemplos de pessoas que vivem a história de Jesus. Timóteo é semelhante a Jesus, pois está constantemente preocupado com o bem-estar dos outros mais do que com ele mesmo, fazendo sacrifícios para servi-los. Epafrodito, a quem os filipenses enviaram com seu presente, acabou arriscando sua vida para servir a Paulo na prisão. Ele ficou tão doente que quase morreu enquanto ajudava Paulo. Felizmente, Deus teve misericórdia dele, poupando Paulo da perda de um amigo. Paulo quer mostrar que esse tipo de pessoa é um exemplo vivo e palpável da vida e da história de Jesus, sendo, portanto, digno de ser imitado.
Filipenses 3:1-4:1: a vida de Paulo imita Jesus
Paulo então se volta para sua própria história como exemplo. Os cristãos que haviam exigido a circuncisão dos não judeus (lembre-se do livro de Gálatas) ainda estão causando problemas a Paulo. Eles lembram Paulo de seu próprio passado conturbado, quando era um perseguidor dos seguidores de Jesus e tentava demonstrar sua justiça diante de Deus por meio de uma obediência zelosa à Torá. Assim como Jesus, Paulo abandonou seu status e sua honra, agora considerando tudo como imundícia (o termo grego que ele usa é ainda mais forte!). Ele se tornou um servo como Jesus, participando de seu sofrimento e amor sacrificial. Paulo faz tudo isso na esperança de que a graça e o amor de Jesus o sustentem até a morte e o levem para a vida da ressurreição.
Paulo diz que, para os seguidores de Jesus, sua verdadeira cidadania está no céu (Fp 3:20). Para Paulo, isso não significa que nossa esperança deva ser simplesmente deixar a terra e ir para o céu. Em vez disso, o céu é o lugar transcendente onde Jesus é o rei da Criação. Paulo diz que esperamos ansiosamente que nosso rei e salvador retorne de lá, trazendo para cá sua justiça restauradora e seu amor transformador para inaugurar uma nova Criação.

Filipenses 4:2-23: vivendo com humildade e esperança
Paulo desafia os filipenses a continuarem vivendo a história de Jesus e aborda duas líderes proeminentes na igreja que trabalharam ao seu lado. Elas estão em algum tipo de conflito, então Paulo suplica para que sigam o exemplo de humildade de Jesus, se reconciliem e se unam. Paulo também exorta os filipenses a não se deixarem dominar pelo medo e, durante a perseguição, derramarem diante de Deus todas as suas emoções e necessidades, recebendo dele a paz. Paulo diz que essa paz surge quando concentramos nossos pensamentos no que é bom e agradável. Sempre existe algo para reclamar, mas um seguidor de Jesus sabe que toda a vida é um presente. Podemos escolher ver beleza e graça em qualquer situação.
Isso nos leva à conclusão da carta. Paulo agradece novamente aos filipenses por sua oferta sacrificial, e quer que eles saibam que suas prisões e tempos de pobreza não são verdadeiras dificuldades. Eles se tornaram seus maiores mestres, mostrando a ele que, independentemente das circunstâncias, existe um segredo para estar satisfeito: uma simples dependência "daquele que o fortalece" (Fp 4:12-13). Paulo passou a ver seu sofrimento como uma participação na história de Jesus.
Esta carta aos filipenses nos proporciona uma visão especial do coração e da mente de Paulo. Ele via toda sua vida como uma reencenação da história de Jesus. É fácil sentir sua conexão com o Messias e sua consciência de que o amor e a presença de Jesus estão mais próximos do que até mesmo sua própria pele. Foi isso que lhe deu esperança e humildade em suas horas mais sombrias. Paulo nos mostra que, em sua essência, conhecer Jesus é um encontro profundamente pessoal e transformador. Esse é o Jesus que Paulo convida os outros a seguir, e é sobre isso que sua carta aos filipenses se trata.

