Êxodo

Êxodo é o segundo livro da Bíblia e continua a narrativa bíblica exatamente de onde Gênesis parou. Jacó, neto de Abraão, e sua família de 70 pessoas foram para o Egito, onde José, um dos filhos de Jacó, havia se tornado o segundo no comando do país. Assim, a família viveu e se multiplicou no Egito, que se tornou um refúgio seguro por muitos anos.
Depois de algumas centenas de anos, a história do Êxodo começa. A palavra "êxodo" refere-se ao principal evento que acontece na primeira metade do livro, o êxodo de Israel do Egito. O livro também tem uma segunda parte que se passa ao pé do Monte Sinai. Por enquanto, vamos nos concentrar na primeira parte, quando séculos se passaram e os israelitas "eram férteis, proliferaram, multiplicaram‑se e encheram a terra” (Êx 1:7).
Esta frase ecoa deliberadamente a bênção que Deus deu à humanidade no jardim (Gn 1.28), o que nos lembra da narrativa maior até agora. Quando a humanidade perdeu a bênção de Deus através do pecado e da rebelião, a resposta de Deus foi escolher a família de Abraão como o meio por meio do qual ele restauraria sua bênção ao mundo.
Êxodo 1-4: a escravidão de Israel pelo faraó
O novo faraó, no entanto, não vê Israel como uma bênção. Ele acha que este grupo crescente de imigrantes israelitas é uma ameaça ao seu poder. Assim, a humanidade se rebela contra Deus como em Gênesis. O faraó tenta destruir os israelitas escravizando-os brutalmente e submetendo-os a trabalhos pesados. A situação já é ruim, mas piora quando ele ordena que todos os meninos israelitas sejam afogados no rio Nilo.
Este faraó é o pior personagem da Bíblia até agora, e seu reino simboliza a rebelião da humanidade contra Deus. O faraó redefiniu tanto o que é bom e mau segundo seus próprios interesses que o assassinato de crianças inocentes passa a ser considerado "bom". O Egito se tornou pior do que a Babilônia, e Israel clama por ajuda contra esta nova forma de mal. Deus responde e começa a frustrar o plano maligno do faraó. Uma mãe israelita lança seu filho no rio Nilo, protegido dentro de um cesto, e o menino chega diretamente à família do faraó. Esse menino se chama Moisés e, com o tempo, se torna o homem que Deus escolherá para derrotar o faraó.
Na famosa história da sarça ardente, Deus se revela a Moisés e o envia ao faraó para exigir a libertação dos israelitas. Deus sabe que o faraó irá resistir. Mas Deus planeja trazer sua justiça sobre o Egito na forma de pragas e endurecer o coração do faraó.
Êxodo 5-15: as dez pragas e o coração endurecido do faraó
O confronto entre Deus e o faraó é o foco principal dessa narrativa, mas o que significa que Deus endurecerá o coração dele? É importante ler esta parte da história com atenção e seguindo a sequência dos acontecimentos. No primeiro encontro de Moisés e do faraó, é dito apenas que o coração do faraó "se endureceu", sem qualquer indicação de que Deus tenha causado isso.
Em seguida, Deus envia as primeiras cinco pragas, e cada uma delas confronta o faraó e seus deuses. Em cada ocasião, Moisés dá ao faraó a oportunidade de se humilhar e libertar o povo. No entanto, depois de cada praga, lemos que o Faraó "endureceu o coração" ou que seu "coração se endureceu". Ele está fazendo isso de sua própria vontade. É somente com o segundo conjunto de cinco pragas que começamos a ouvir que Deus endureceu o coração do faraó.
O ponto é que, embora Deus soubesse que o faraó resistiria à sua vontade, Deus ainda lhe ofereceu muitas chances de fazer a coisa certa. Eventualmente, a maldade do faraó atinge um ponto sem retorno, e até mesmo seus conselheiros pensam que ele perdeu a cabeça. É nesse momento que Deus toma o controle e transforma o mal do faraó em instrumento para seus propósitos redentivos. Ele atrai o faraó para sua própria destruição e salva seu povo.
Com a praga final, a noite da Páscoa, Deus vira o jogo contra o faraó. Assim como o faraó matou os filhos dos israelitas, Deus também matará os filhos primogênitos do Egito. Ao contrário do faraó, porém, Deus providenciará um meio de escape por meio do sangue de um cordeiro.
Aqui a história faz uma pausa e nos apresenta o ritual anual israelita da Páscoa (Êx 12-13). Na noite anterior à saída de Israel do Egito, eles sacrificaram um cordeiro jovem e sem manchas e passaram o seu sangue no batente da porta de suas casas. Quando a praga divina atingiu o Egito, ela "passou por cima" das casas cobertas com o sangue do cordeiro e os filhos foram poupados. Todos os anos desde então, os israelitas reencenam esta noite para recordar e celebrar a justiça e a misericórdia de Deus.
Por causa de seu orgulho e rebeldia, o faraó perde seu filho e é finalmente obrigado a libertar os israelitas. Os escravos israelitas escapam do Egito, mas, assim que saem, o faraó muda de ideia. Ele reúne seu exército e os persegue para um confronto final, acreditando que poderá matá-los às margens do mar. No entanto, os israelitas correm para o mar e descobrem que estão andando em terra seca que Deus providenciou. Mas quando o faraó os persegue, as águas se fecham sobre ele, destruindo-o.

Esta parte do livro do Êxodo conclui com o primeiro cântico de louvor da Bíblia, chamado "O Cântico do Mar" (Êx 15). O verso final declara que "o Senhor governa como rei", e o cântico reconta em forma poética do que se trata o reino de Deus. Deus está em uma missão para confrontar o mal em seu mundo, redimir aqueles que estão escravizados pelo mal e conduzi-los à terra prometida, onde sua presença divina habitará entre eles. É assim que acontece quando Deus se torna rei sobre seu povo.
Êxodo 16-18: murmurando no deserto
Depois que o povo canta seu cântico, a história toma um rumo surpreendente. Os israelitas caminham pelo deserto rumo ao Monte Sinai e ficam com muita fome e sede. Em seu sofrimento, eles começam a criticar Moisés e Deus por resgatá-los do Egito! Apesar de Deus generosamente providenciar comida e água para o seu povo, esses eventos lançam uma sombra sobre a narrativa. Como leitores, nos perguntamos se é possível que o coração de Israel seja tão duro quanto o do faraó. Essa pergunta perturbadora nos acompanha ao avançarmos para a história da experiência de Israel no Monte Sinai.
Êxodo 19-31: a aliança no Sinai

A segunda parte do livro do Êxodo começa quando Moisés leva Israel ao pé do Monte Sinai (Êx 19), onde Deus convida a nação a entrar em um relacionamento de aliança. É aqui que chegamos a outro momento crucial na grande narrativa bíblica. Esse momento desenvolve a promessa de Deus a Abraão, isto é, de que, por meio dele e de sua família, Deus restauraria sua bênção a todas as nações (Gn 12; Gn 15; Gn 17). Deus diz que, se o povo de Israel obedecer aos termos da aliança, eles se tornarão um "reino de sacerdotes" (Êx 19:6), agindo como representantes de Deus às nações e mostrando seu caráter pela forma como vivem. Desta forma, a justiça e a misericórdia de Deus alcançarão as nações.
As pessoas aceitam a oferta com avidez, e a presença de Deus aparece na montanha na forma de uma nuvem. Moisés sobe como o representante do povo, e Deus estabelece os termos básicos da aliança, que são os famosos Dez Mandamentos. Estes mandamentos são regras fundamentais que estabelecem como os israelitas se relacionam com Deus e uns com os outros. Em seguida, vem um conjunto de mais 52 mandamentos, que detalham e ampliam os Dez Mandamentos originais. Existem leis sobre o culto a Deus e a justiça social, que determinam como Israel deveria viver de forma diferente das outras nações. Moisés escreveu todas essas leis e as trouxe ao povo, que logo concordou com os termos da aliança.
Em seguida, Deus leva o relacionamento a um outro patamar. Ele diz a Moisés que deseja que sua presença santa e divina habite no meio de Israel. Isso desenvolve outro aspecto da promessa da aliança original de Deus do livro de Gênesis. Depois da rebelião da humanidade no jardim, o acesso à presença de Deus foi perdido. No entanto, por meio da família de Abraão, a presença de Deus se tornou acessível novamente, primeiro a Israel no Monte Sinai e um dia a todas as nações.
Os sete capítulos seguintes (Êx 25-31) detalham os projetos arquitetônicos de uma tenda sagrada chamada tabernáculo. Há um pátio externo com um altar, uma sala externa e interna no centro da tenda, e dentro da sala interna — chamada de lugar santíssimo — há uma caixa dourada com criaturas angelicais sobre ela, que é a arca da aliança. Esta arca age como um centro de manifestação da presença de Deus.
Há muitos detalhes nesses capítulos, mas é importante saber que cada parte tem um valor simbólico. Todas as flores, anjos, ouro e joias remetem ao jardim do Éden, o lugar onde Deus e os humanos conviviam em intimidade. Em outras palavras, o tabernáculo é um Éden portátil onde Deus e Israel podem viver juntos em paz. Em tese, era assim que poderia ter funcionado, mas as coisas saem do controle, e Israel quebra a aliança.
Êxodo 32-40: a rebelião de Israel no deserto
Enquanto Moisés está na montanha recebendo os planos para o tabernáculo, os israelitas estão perdendo a paciência no acampamento. Eles pedem a Arão, irmão de Moisés, que construa um bezerro de ouro para adorá-lo como o deus que os salvou da escravidão no Egito. Mesmo com a presença de Deus pairando sobre o monte, eles já estão quebrando os dois primeiros mandamentos da aliança: não fazer ídolos e não adorar outros deuses.
Os acontecimentos seguintes são fundamentais para o desenrolar da narrativa bíblica e para entendermos a natureza de Deus. Deus primeiro convida Moisés a participar de sua ira e dor, expressando seus sentimentos e dizendo que deseja destruir toda a nação de Israel. Depois de ouvir, Moisés intercede, apelando para o caráter de Deus e dizendo que isso significaria quebrar as promessas da aliança feitas a Abraão. Moisés também apela à reputação de Deus entre as nações. O que os egípcios pensariam se ele permitisse que Israel morresse no deserto? Deus aceita a oração de Moisés e recua de sua decisão. E, apesar de punir os responsáveis pela idolatria, Deus perdoa a nação inteira e reafirma a aliança. É aqui que Deus revela seu caráter a Moisés. "Senhor compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade. Perdoa o pecado, mas não deixa de punir o culpado" (Êx 34:6-7). Em outras palavras, Deus é muito misericordioso, mas precisa lidar com o mal se afirma ser bom. Mais do que tudo, Deus é fiel às suas promessas, mesmo diante de um povo infiel.

Depois de renovar a aliança, Deus ordena que Moisés construa o tabernáculo, que é detalhado nos próximos cinco capítulos (Êx 35-39). E ele toma forma no capítulo final (Êx 40). O tabernáculo é finalizado e a presença gloriosa de Deus vem sobre a tenda. Temos grandes esperanças agora! Mas, quando Moisés está prestes a entrar na tenda, ele descobre que não consegue. Ele é impedido de entrar e o livro de Êxodo termina de forma repentina.
Agora percebemos que o pecado de Israel prejudicou seu relacionamento com Deus de maneiras que antes não havíamos compreendido. O livro pode ter começado com o mal do faraó ameaçando Israel, mas, ao chegar ao fim, Israel se tornou seu maior inimigo. O pecado e a idolatria do próprio povo de Deus são agora a maior ameaça às promessas da aliança. Como Deus reconciliará o conflito entre sua presença santa e boa com o pecado e a corrupção de seu próprio povo? Essa é a pergunta que o próximo livro, Levítico, se propõe a responder.
Perguntas frequentes
Confira algumas das perguntas mais comuns feitas na internet sobre este livro bíblico.
O livro do Êxodo estabelece um padrão de salvação que se repete em toda a Bíblia. Quando Deus liberta seu povo da escravidão no Egito, ele revela seu desejo contínuo de resgatar as pessoas da opressão e da morte. E o livro de Êxodo mostra que o objetivo final de Deus ao libertar seu povo é convidá-lo a viver na sua presença. Após libertar os israelitas do Egito, Deus estabelece uma aliança com eles, oferecendo sabedoria para que vivam de forma condizente com sua identidade como seu povo. Ele também os chama a construir uma tenda portátil, o tabernáculo, onde ele pode habitar entre eles enquanto viajam pelo deserto rumo à terra que ele prometeu a seus ancestrais.
O padrão do Êxodo encontra seu cumprimento máximo em Jesus. A vida, morte e ressurreição de Jesus traçam um caminho para seus seguidores saírem da morte e entrarem na nova terra prometida, o reino dos céus. Quando o Filho de Deus se torna humano, João 1:14 diz que ele "habitou entre nós", usando um verbo (senceno) que está relacionado à palavra grega para o "tabernáculo" (sene). Em outras palavras, Jesus se torna o novo tabernáculo, onde a presença de Deus habita entre seu povo. E ele estabelece uma "nova aliança" (Lc 22:20), convidando todos a entrar em um relacionamento de aliança com ele para que possam seguir seus passos rumo à nova vida.
Embora a Bíblia não afirme explicitamente por que Deus escolhe Moisés para tirar os israelitas da escravidão no Egito, ela fornece uma visão sobre por que Moisés é um candidato ideal para este papel. As experiências de vida de Moisés refletem e antecipam o êxodo de Israel, tornando-o particularmente apto para liderá-los.
Quando ainda era um bebê, Moisés enfrenta a morte no momento em que o faraó decreta que todos os meninos israelitas devem ser lançados no rio Nilo (Êx 1:22). A mãe de Moisés eventualmente obedece à ordem do faraó, mas coloca Moisés em uma "arca" protetora (hebresteva tevah, Êx 2:3; veja Gn 6:14). Ele é então resgatado das águas da morte quando a filha do faraó o tira do rio e o adota como filho. Tendo já experimentado a libertação de Deus no êxodo, Moisés deve confiar agora que Deus também pode resgatar Israel.
Enquanto Moisés ainda está no Egito, ele mostra compaixão em relação à situação de seu povo quando mata um superintendente egípcio que espanca um escravo israelita (Êx 2:11-12). Seu desejo é resgatar seu povo, mas sua ação mostra uma falta de julgamento. Ele não procura compreender a vontade de Deus em relação ao momento e à maneira como a libertação será realizada.
Embora as experiências e os traços de caráter de Moisés o qualifiquem exclusivamente para o trabalho de liderar os israelitas, ele reluta em aceitar. Então, Deus garante a Moisés que estará com ele (Êx 3:11-12). Moisés libertará o povo, não por sua própria força, mas através do poder de Deus.
Depois que Deus chama Moisés para tirar os israelitas do Egito, Moisés pergunta a Deus por seu nome. No mundo antigo, os nomes refletiam a identidade e o caráter de uma pessoa. Assim, Deus responde: "Eu sou (hebraico 'ehyeh) o que sou ('ehyeh)" (Êx 3:14), e isso está relacionado ao nome revelado de Deus: Yahweh.
O verbo hebraico hayah, que aparece em ambas as formas do nome de Deus, reflete sua existência contínua, autossustentável e imutável. Seu ser não depende de ninguém nem de nada. Ele simplesmente é. Ele é aquele que traz todas as coisas à existência, e seu caráter é consistente e confiável.
"Eu sou o que sou" também está profundamente conectado ao desejo de Deus de estar com seu povo. Quando Moisés ouve pela primeira vez o chamado desafiador de Deus, ele demonstra relutância. Como poderia ele, um pastor exilado, libertar uma nação escravizada de uma grande potência mundial como o Egito? Deus é paciente com suas dúvidas e medos, declarando: "Eu estarei (ehuhe) com você" (Êx 3:12). Ao usar uma parte de seu nome em sua promessa a Moisés, Deus enfatiza que esta promessa é um compromisso gravado em sua identidade e caráter. Ele é o Deus do êxodo, que fielmente liberta seu povo da opressão e o conduz a uma vida junto dele.
Quando Deus chama Moisés para ir salvar os israelitas da opressão no Egito, Moisés duvida que o povo acredite que ele era enviado por Deus. Assim, Deus dá a Moisés três sinais para demonstrar sua autoridade. Primeiro, ele instrui Moisés a jogar seu cajado no chão, e ele se transforma em uma serpente, fazendo Moisés fugir apavorado. Mas Deus o convida a "estender" (shalakh) a mão e pegar a serpente pela cauda. E quando ele faz isso, a serpente se transforma novamente em um cajado. Pegar a serpente pela cauda é arriscado, já que a cabeça dela fica livre para atacar. Então, a ação de Moisés reflete sua confiança de que Deus o protegerá. Mas também simboliza algo muito mais profundo.
No Egito antigo, o faraó muitas vezes estava associado à imagem de uma serpente; seu chapéu exibia o Uraeus, uma cobra. Na instrução de Deus para que Moisés "estenda (shalakh)" e pegue a serpente, Deus deliberadamente repete a linguagem de sua promessa anterior a Moisés: "Eu estenderei (shalakh) minha mão e ferirei o Egito com todos os meus sinais que farei no meio dele; depois disso ele os deixará ir." (Êx 3:20, NAS) Ao convidar Moisés a estender a mão contra a serpente, Deus mostra que está dando a Moisés autoridade sobre o faraó e que está se unindo a ele para cumprir sua promessa.
Na Bíblia, o faraó também é semelhante à serpente em Gênesis 3, que incorpora o mal e a rebelião contra Deus. Quando Moisés estende a mão contra a serpente, ele se torna um cumprimento da promessa de Deus de que a descendência de Eva esmagará a cabeça da serpente (Gn 3:15).
Depois que Deus chama Moisés a retornar ao Egito e libertar seu povo da escravidão, Deus encontra Moisés no caminho e procura matá-lo (Êx 4:24-26). Mas por que Deus mataria seu próprio mensageiro?
Há duas possibilidades iniciais. A primeira possibilidade tem a ver com a falha de Moisés em não circuncidar seu filho Gérson. Como descendente de Abraão, Moisés e toda a comunidade de Israel estão ligados em um relacionamento de aliança com Deus. Neste momento da narrativa, a única prática exigida dos israelitas para fazer parte da aliança é a circuncisão. Qualquer um que não circuncidar seu filho será eliminado do meio do seu povo (Gn 17:9-14). Então, como Moisés pode assumir o papel de líder de Israel se ele próprio não circuncida seu filho?
A segunda razão possível para a ameaça à vida de Moisés é seu passado. Antes de fugir do faraó, Moisés mata um egípcio (Êx 2:12). Deus já havia deixado claro que há consequências de vida por vida para aqueles que cometem assassinato (Gn 9:5-6). Na verdade, as consequências de tirar a vida de alguém ficam claras no contexto da narrativa. Deus acabou de dizer que matará o filho primogênito do faraó em resposta ao assassinato e abusos do faraó ao povo israelita (Êx 4:22-23; veja 1:8-22). Agora, Moisés também é culpado pelo derramamento de sangue. Quando o faraó descobre que Moisés matou um egípcio, ele "busca" (baqash) matar Moisés, que então foge para Midiã (Êx 2:15). Assim, quando Deus busca (baqash) matar Moisés, ele pode estar confrontando-o por um crime que ainda não foi tratado.
Mas Zípora, a esposa de Moisés, aborda ambos os problemas, circuncidando rapidamente seu filho. Embora ela não seja israelita, ela entende claramente o significado da circuncisão para a comunidade da aliança de Deus. E quando Zípora derrama sangue e "toca" (naga') o prepúcio de seu filho aos pés de Moisés, suas ações apontam para a Páscoa. Quando o sangue do cordeiro pascal toca (naga') os batentes das portas das casas, os que estão dentro são protegidos do juízo de Deus sobre o faraó por suas ações assassinas.
O tabernáculo é um templo portátil onde a presença de Deus habita com Israel durante a jornada pelo deserto. Depois de libertar os israelitas da escravidão no Egito, Deus dá instruções a Moisés para construir o tabernáculo no Monte Sinai (Êx 25-31). Uma vez que o tabernáculo é concluído, a presença de Deus desce do topo da montanha para habitar nesta estrutura cuidadosamente elaborada (Êx 40:34-35).
O tabernáculo é dividido em três partes, cada uma projetada para um propósito diferente. O pátio exterior fornece um lugar para as pessoas trazerem suas ofertas a Deus. Dentro deste pátio está o lugar santo, no qual somente os sacerdotes podem entrar para cumprir suas responsabilidades. E além do lugar santo há o santo dos santos, onde a presença de Deus se concentra. Somente o sumo sacerdote pode entrar nesta sala interior e apenas uma vez por ano, no Dia da Expiação (Lv 16).
O tabernáculo foi projetado intencionalmente para evocar o jardim do Éden. O candelabro do tabernáculo, com seus ramos e flores (Êx 25:31-40), lembra a árvore da vida. E os querubins do santo dos santos (Êx 25:16-22) são como os querubins que guardam a entrada do jardim depois que os humanos são expulsos (Gn 3:24). Além disso, Deus dá instruções a Moisés para o tabernáculo em sete discursos, ecoando o relato da Criação de sete dias. Essas conexões deixam claro que o tabernáculo, assim como o jardim, é um espaço do céu na terra, onde a presença de Deus habita com seu povo.
Em Êxodo 25-31, Deus dá a Moisés instruções detalhadas para o tabernáculo. E, alguns capítulos depois (Êx 35-40), muitos dos mesmos detalhes são repetidos quando as pessoas constroem o tabernáculo. Para entender por que o livro inclui toda essa repetição, vale a pena dar uma olhada na narrativa que ocorre no meio (Êx 32-34).
Quando Moisés desce do Monte Sinai com o plano para o tabernáculo, ele encontra o povo de Israel adorando um bezerro de ouro (Êx 32:1-19). Depois de concordar em entrar em um relacionamento de aliança especial com Deus (Êx 19:4-8), eles quebram essa aliança quase imediatamente ao fazer um ídolo (veja Êx 20:4-6). Isso ameaça a capacidade dos israelitas de viver na presença de Deus e suspende a construção do tabernáculo. Deus ainda vai escolher habitar com eles?
Moisés ora em nome do povo e, apesar do fracasso deles, Deus restabelece seu relacionamento de aliança (Êx 34:27-28). Assim, Êxodo 35-40 celebra que os israelitas são capazes de avançar com a construção do tabernáculo para que a presença de Deus possa descer e habitar em seu meio.
Em Êxodo 34:6-7, Deus se apresenta da seguinte maneira:
"Yahweh, Yahweh,
um Deus compassivo e misericordioso,
paciente,
cheio de amor e de fidelidade,
que mantém o seu amor a milhares,
e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado,
embora ele não deixe de punir o culpado,
castiga os filhos e os netos pelo pecado de seus pais,
até a terceira e a quarta gerações." (Tradução do BibleProject)
Essas palavras vêm em um momento crucial na história de Israel. O povo acabou de aceitar o convite de Deus em um relacionamento de aliança. Mas, em seguida, eles quebram seu compromisso adorando um ídolo. Como Deus responderá à infidelidade do povo?
No meio desta incerteza, Deus descreve seu caráter a Moisés. E, em seguida, ele demonstra sua compaixão, graça, amor leal e fidelidade ao renovar sua aliança com Israel (Êx 34:27-28). Mesmo depois que o povo não consegue manter sua promessa, Deus continua a oferecer um relacionamento de aliança com eles.
Para algumas pessoas, o verso final deste poema pode levantar a questão: Deus julgará injustamente as crianças pelas escolhas de seus pais? Mas outras passagens, como Deuteronômio 24:16 (NVI), deixam claro que Deus não pune os inocentes pelas ofensas dos culpados: “Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado.”
A autodescrição de Deus revela que ele leva a sério os atos humanos de injustiça e infidelidade, e nos lembra que comportamentos destrutivos muitas vezes são transmitidos de uma geração para a outra. Mas, embora Deus trate a maldade, a passagem enfatiza que seu amor leal e perdão se estendem muito além de seu julgamento, alcançando milhares.
Essas palavras que descrevem o caráter de Deus são tão importantes que são mencionadas ao longo da Bíblia com mais frequência do que qualquer outra passagem (veja, por exemplo, Dt 5:9-10; Sl 86:15; Dn 9:4). Assim, Êxodo 34:6-7 nos fornece uma introdução fundamental ao caráter de Deus.

