Cântico dos Cânticos
Sobre

Cântico dos Cânticos é um livro bíblico bem conhecido, mas pouco compreendido, composto por oito capítulos da antiga poesia israelita sobre o amor. Embora haja uma introdução e uma conclusão, o livro não tem uma estrutura literária rígida. É uma coletânea de poemas que não foi feita para ser dissecada, mas para ser lida e apreciada como uma unidade contínua.
A primeira frase do livro declara que é "Cântico dos Cânticos", uma expressão idiomática em hebraico semelhante a "santo dos santos" ou "rei dos reis". É uma maneira hebraica de dizer que algo é o máximo, o maior de todos. Isto é, este cântico é o maior cântico de todos.
Também somos informados de que este cântico é "de Salomão", o que poderia significar que ele é o autor. Porém, ao lermos os poemas, descobrimos que a voz principal pertence a uma mulher chamada "a amada". E, embora haja uma voz masculina nos poemas, não é a voz de Salomão. Ele é mencionado nos poemas, mas nunca como um narrador (Ct 3:7-11; Ct 8:11-12). Além disso, é preciso admitir que Salomão é um candidato estranho a ser autor, já que ele teve cerca de 700 esposas (1Rs 11:1-3)! Isso estabelece um contraste entre os dois amantes em Cântico dos Cânticos, já que eles são exclusivos um do outro.
A expressão "de Salomão" provavelmente significa "na tradição de sabedoria de Salomão". Salomão era conhecido por sua sabedoria e poesia, bem como por seu amor pelo aprendizado sobre todos os aspectos da vida (1Rs 4:29-34). Ele ficou conhecido como o pai da literatura sapiencial em Israel, e aqui seu legado é perpetuado através de uma coletânea de poemas que exploram a experiência humana do amor e do desejo sexual.
Cântico dos Cânticos 1-8: o anseio, a busca, a paixão e o poder do amor
O poema de abertura (Ct 1:2-7) apresenta o tema básico do livro. Ouvimos a voz de uma jovem que se deleita em seu homem, que é um pastor. Ela ainda não está casada com ele, mas fica claro que eles estão noivos e mal podem esperar para ficar juntos. A partir daí, os poemas alternam entre a voz da mulher e a do homem, mudando de cena em cena sem qualquer sequência linear ou enredo claro. Os poemas se movem em ciclos sinfônicos, onde imagens e temas importantes são repetidos e desenvolvidos.
Um dos temas básicos que unem os poemas é o desejo intenso que o casal tem um pelo outro, expresso através de sua constante "busca" e "encontro." Depois do poema de abertura, eles estão separados, mas seguem procurando um pelo outro. Ao despertar de um sonho, a mulher chama e sai em busca de seu amante mais de uma vez (Ct 2:3-6; Ct 3:4; Ct 8:1-3). Eles acabam se encontrando, se abraçam e, quando as coisas ficam um pouco mais quentes, a cena termina de repente, iniciando outra em que eles estão separados mais uma vez.
Outro tema que se repete é a alegria da atração física deles um pelo outro. Eles fazem uma pausa em vários momentos para descrever uns aos outros com metáforas elaboradas (Ct 4:1-5; Ct 5:10-16; Ct 6:4-7; Ct 7:1-5). Aqui, é útil saber que as imagens e metáforas na poesia hebraica não são principalmente visuais. Se tentarmos transformar as metáforas em uma pintura, o resultado será algo bastante estranho! O que devemos fazer é refletir sobre o significado das imagens e como elas se relacionam com o homem e a mulher.

À medida que lemos esses ciclos poéticos, a tensão se constrói em seu desejo, alegria e atração um pelo outro. A repetição em espiral se torna uma maneira poética de enfatizar e se concentrar no mistério e no poder do amor sexual. Tudo se encaixa na conclusão, que faz uma pausa para resumir o que são esses poemas.
"O amor é tão forte quanto a morte, e o ciúme é tão forte quanto a sepultura. O amor arde como fogo, uma chama divina. Muitas águas não podem extinguir o amor, os rios não podem varrê-lo. Se alguém entregasse toda a riqueza da casa por amor, ele seria totalmente desprezado."
O poema destaca o poder e a intensidade do amor: ele é belo, envolvente e perigoso. Como o fogo, ele pode destruir as pessoas se for mal utilizado, mas pode dar vida se for protegido e cultivado. Em última análise, o amor expressa o desejo humano insaciável de conhecer e ser plenamente conhecido e desejado por outro. O amor é uma das experiências mais transcendentes e misteriosas da vida humana e, como parte da tradição de sabedoria da Bíblia, este livro diz que é um dom de Deus.
Depois disso, encontramos de repente um poema estranho (Ct 8:10-12) sobre Salomão tentando fazer o que o poema anterior dizia ser impossível: comprar o amor. A mulher rejeita categoricamente a oferta de Salomão, e o livro conclui com os personagens do homem e da mulher separados mais uma vez e voltando a procurar um pelo outro. Ele a chama para ouvir a voz dela (Ct 8:13) e ela implora para que ele fuja com ela (Ct 8:14). O livro termina assim, sem um final definido. Isso é muito parecido com o amor verdadeiro, que nunca termina de fato, porque sempre há mais a descobrir e buscar em quem se ama. Assim como o amor verdadeiro não tem fim, este livro também não tem um final.
Interpretações de Cântico dos Cânticos
Ao longo da história, a grande pergunta levantada pelo livro de Cântico dos Cânticos é: por que há poesia de amor na Bíblia? Ao longo da história, houve três interpretações principais do livro. Na tradição judaica, o livro era lido de maneira alegórica, e cada personagem representava um símbolo. A mulher é Israel, o homem é Deus, e seu amor é um símbolo da aliança entre eles e a entrega da Torá. Essa visão passou para a tradição cristã, mas os personagens foram trocados, isto é, trata-se do amor de Cristo pelo seu povo e pela Igreja.
Esta interpretação foi inspirada pelas palavras de Paulo em Efésios 5:25-33, de que o amor de um marido cristão por sua esposa é um símbolo do amor de Cristo pela Igreja. No entanto, descobertas arqueológicas feitas no último século entre os antigos vizinhos de Israel, no Egito e na Babilônia, revelaram diversas poesias de amor antigas, repletas de imagens e linguagem muito semelhantes às de Cântico dos Cânticos. Em outras palavras, a poesia amorosa constituía uma parte significativa do ambiente cultural de Israel. Assim, não deveria causar surpresa que ela também esteja presente na literatura de sabedoria bíblica. Isso levou a maioria dos estudiosos atuais a ver o livro de Cântico dos Cânticos da forma como ele se apresenta, ou seja, como uma coletânea de poesias amorosas israelitas refletindo sobre o dom divino do amor.

Porém, isso não significa que seja apenas uma poesia de amor antiga. Há uma característica marcante nesses poemas quando eles são lidos como parte da Bíblia hebraica, que é o uso predominante de imagens de jardim. Há referências poderosas ao jardim do Éden e à cena idílica do primeiro casal em Gênesis 1-2. As imagens do homem e da mulher nus e vulneráveis, mas unidos e completamente seguros um com o outro (Gn 2:23-25), reverberam no contexto do Cântico. É como se, através desses poemas, estivéssemos testemunhando o amor de um casal cujo relacionamento não é contaminado pelo egoísmo e pelo pecado.
Assim, o livro de Cântico dos Cânticos oferece esperança. Embora nossos relacionamentos sejam muitas vezes distorcidos pelo egoísmo, o amor é um dom transcendente que deve nos apontar para algo maior, ou seja, o dom do amor de Deus que um dia permeará e transformará seu mundo amado.
Esta bela esperança é o tema do "Maior de todos os Cânticos".

