"Por que Jesus teve que morrer?" (Uma pergunta que vale a pena ser explorada)

Como a história bíblica ajuda a explicar o significado da cruz

Por BibleProject Team
30 de março de 2023
13 min de leitura

Se perguntarmos a cinco pessoas "por que Jesus morreu na cruz?", provavelmente teremos uma dúzia de respostas diferentes.

Para algumas pessoas, tem a ver com sacrifício, pecado e perdão. Para outras, o foco está na vitória cósmica de Jesus sobre a morte ou em seu exemplo máximo de altruísmo. Cada ponto de vista levanta perguntas que precisam ser examinadas com mais profundidade.

No entanto, a Bíblia apresenta uma explicação simples, porém significativa: Jesus escolheu morrer porque Deus ama a humanidade.

Isso obviamente requer uma análise, e o contexto bíblico lança luz sobre essa ideia complexa e suas implicações.

Ao longo deste artigo, vamos examinar algumas partes importantes da história bíblica que nos auxiliam a entender essa verdade profunda.

A complexidade de dizer que Jesus morreu "por" nós

Os primeiros seguidores de Jesus descrevem sua morte com diferentes ênfases e nuances. Se fizermos uma lista, encontraremos uma variedade de declarações que sintetizam isso (p. ex., 1Co 15:1-4; Rm 5:6-8; 1Jo 2:1-2; Hb 2:9). Também perceberemos que todas essas passagens compartilham uma mesma ideia expressa em uma frase recorrente: “Jesus morreu por nós”.

Isso parece simples, mas ainda podemos nos perguntar: "De que maneira ele morreu por nós?"

No Novo Testamento, a expressão "por nós" emprega uma de duas palavras gregas. A primeira, huper (ὑπὲρ), geralmente é traduzida com a palavra "por". Mas huper pode transmitir várias nuances de significado, incluindo "em benefício de", "em vez de/como representante de" ou "por causa de, pelo motivo de".

Os autores do Novo Testamento também usam a palavra grega peri (περὶ) para dizer "para". E peri também transmite vários significados, como "para, ao redor de, sobre", "a razão de", "por causa de", "referente a" e "em relação a".

Quando esses autores dizem que Jesus morreu por nós usando uma dessas duas palavras gregas, eles querem dizer que Jesus morreu em benefício dos seres humanos? Ou que ele morreu no lugar dos humanos, o que sugere que ele morreu como um substituto? Eles estão dizendo que ele morreu por causa dos seres humanos, por causa do que temos feito ou do que fizemos com ele? Ou será que é por causa de seu amor pelos seres humanos? Pode ser todas essas coisas ao mesmo tempo? Talvez ele tenha morrido por nós de todas essas maneiras e muito mais.

O apóstolo Paulo ajuda a estreitar o nosso foco quando diz em 1Coríntios 15:3 que Cristo morreu por nossos pecados, "segundo as Escrituras". Ele está se referindo a um contexto bíblico anterior. E, como o Novo Testamento não existia nos dias de Paulo (estava em processo de escrita), sabemos que ele está se referindo às Escrituras hebraicas.

Vamos examinar alguns momentos importantes da história bíblica que nos ajudam a entender como Jesus morreu "conforme as Escrituras", começando com a história do Éden e sua descrição fundamental da morte humana. Teremos dificuldade em compreender a morte de Jesus sem antes considerar as razões da nossa própria morte.

Por que morremos?

Por que nosso cabelo fica grisalho e a nossa pele enrugada? Por que todos nós morremos e "retornamos ao pó", como diz Gênesis 3:19?

Em Gênesis 1, Deus traz à existência sua boa Criação. Em Gênesis 2, vemos uma distinção entre dois espaços importantes na Criação: o mundo em geral e o jardim especial que Deus planta no Éden (Gn 2:8).

O jardim é como um lar de Deus, uma imagem do céu na terra, onde Deus caminha com os seres humanos e compartilha sua vida infinita e abundante em parceria com eles. E como Deus é a fonte infinita de vida, o jardim é um lugar livre da morte. Fora do jardim, o mundo ainda possui beleza, bondade e vida, mas também tem datas de validade. Diferente do que acontece no jardim, os seres vivos vêm do pó e retornam a ele, isto é, eles morrem. Curiosamente, Deus forma o ser humano inicialmente fora do jardim, no reino do pó.

Gênesis 2:7 mostra Deus formando o adam, que em hebraico significa "humano", a partir do adamah, que significa "solo, argila ou pó", a substância do solo. Depois de formar o adam e soprar seu Espírito de vida nele, Deus planta um jardim e coloca o ser humano dentro dele (Gn 2:8; 2:15). Assim que o ser humano entra no jardim, Deus oferece uma escolha. Os humanos podem continuar vivendo com ele no jardim para sempre ou parar de viver com ele no jardim e retornar ao pó, o adamah. A escolha certa parece óbvia. Por que alguém desejaria sair?

A história em Gênesis 2:15-17 mostra Deus plantando duas árvores que representam essas opções de vida ou morte, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Comer da árvore da vida significa confiar na sabedoria de Deus, vivendo para sempre com ele e de acordo com suas instruções. No entanto, comer da árvore do conhecimento do bem e do mal significa confiar na sabedoria humana, rejeitando assim a instrução e a vida de Deus. Deus diz que, se “você comer dessa árvore, certamente morrerá” (Gn 2:17).

Os humanos provavelmente nunca tiveram a intenção de deixar o jardim, mas não levaram as palavras de Deus a sério e confiaram na sabedoria de uma serpente enganadora, e não em Deus. Depois de fazer a escolha errada, o humano (adam) é enviado para fora do jardim e de volta ao lugar em que foi originalmente formado: "o solo (adamah) do qual foi tirado" (Gn 3:19). O ser humano agora deve viver fora do jardim, onde as pessoas envelhecem e, por fim, morrem, retornando ao pó.

A mensagem central da história do Éden é a de que os humanos morrem porque, desde o início, rejeitamos a oferta de vida plena de Deus. A oferta de Deus requer uma rendição do que podemos achar que é vida, para que possamos receber a verdadeira vida que Deus quer nos dar. Tragicamente, muitas vezes decidimos escolher a vida segundo nossa própria sabedoria, abraçando nossa própria autodestruição. Muitas vezes, essas escolhas parecem tão inocentes quanto comer frutas saborosas e de boa aparência (cf. Gn 3:6), mas quando essas escolhas se opõem às sábias instruções de Deus, elas corrompem a vida e trazem a morte.

A morte é o nosso fim?

Deus não apenas exila os humanos do Éden, mas também coloca dois querubins e uma espada mortal de fogo no portão do jardim para evitar que eles entrem novamente (Gn 3:24). Deus descreve isso como uma misericórdia severa que impedirá que os humanos vivam para sempre em um estado de corrupção (Gn 3:22). Mas isso cria um paradoxo na narrativa. Sabemos por Gênesis 1 que o plano de Deus é supervisionar a Criação em parceria íntima com os humanos que são feitos à imagem de Deus. Mas como isso pode acontecer se a única maneira de restaurar a vida eterna dos humanos é passar pelos anjos ardentes com a espada — ou seja, morrendo?

Se a história terminasse aqui, seria uma grande tragédia, pois daria a impressão de que Deus está cortando todos os laços com a humanidade. Mas estamos apenas no capítulo 3; a história mal começou, e rapidamente fica claro que Deus não vai abandonar seus parceiros humanos à sepultura.

Como os humanos não podem voltar ao Éden por conta própria sem morrer, Deus estabelece outro caminho que aponta para uma resolução definitiva. Ao conduzir os israelitas até o Monte Sinai, Deus fornece orientações para a construção de uma tenda itinerante de encontro, ou tabernáculo, onde Deus leva o lar do Éden ao seu povo. Mais tarde, haverá um templo em Jerusalém, onde Deus graciosamente faz a mesma coisa. E, por fim, Deus trará sua vida infinita o mais perto possível, ao se tornar humano em Jesus de Nazaré.

Cada um desses movimentos diz que Deus não está interessado em abandonar sua parceria com a humanidade. Em vez disso, Deus se junta a nós no pó, mostrando que a verdadeira vida é a união com ele e que nossa morte é uma tragédia temporária, não nosso fim definitivo.

Vejamos agora como os rituais do tabernáculo e do templo nos ajudam a entender melhor a morte de Jesus.

Preservando a vida através da morte

À medida que a história bíblica se desenrola, as pessoas aprendem a sobreviver fora do jardim, lutando contra os inimigos, trabalhando para fazer a terra produzir frutos e sofrendo. Deus se une a eles neste espaço, primeiro ajudando-os a criar uma tenda móvel, o tabernáculo, que ele orienta o povo a encher com símbolos do Éden. É a forma de Deus dizer: "Vocês estão fora do jardim onde eu habito, mas eu amo vocês. Por isso estou indo até onde vocês vivem, para que possam experimentar pequenos vislumbres da vida do Éden e, no fim, retornar ao lugar para o qual foram criados."

Assim como no jardim, o tabernáculo é uma zona livre de morte. Quando lemos as leis relacionadas à construção, manutenção e adoração ritual do tabernáculo (veja Êx 25-28; Lv 1-27), fica claro que qualquer coisa relacionada à morte é proibida de entrar na tenda. Repleto de imagens de romãs, oliveiras, amêndoas e todos os tipos de plantas de pomar belas e nutritivas, o tabernáculo também tem imagens bordadas de querubins em cortinas que bloqueiam a entrada em seu espaço mais sagrado. Se estivéssemos na entrada do pátio do tabernáculo, veríamos os querubins de ambos os lados e o fogo do altar entre eles. Isso remete aos querubins e a espada flamejante no portão do Éden. Tudo é projetado para comunicar que entrar neste espaço onde Deus habita é como reentrar no Éden.

Mas lembre-se do paradoxo. A história do Éden deixou claro que qualquer um que tentasse entrar novamente na vida do Éden morreria pela espada de fogo do anjo. Então, como as pessoas podem voltar à presença de Deus se estiverem mortas? E se elas estiverem mortas, como podem fazer qualquer coisa?

Aqui, temos um vislumbre de um mistério misericordioso que é explorado em detalhes nos capítulos 16-17 de Levítico. Deus aceitará a vida de um representante inocente que entregará sua vida "por" outro. No ritual de sacrifício, um animal sem mancha (ou seja, "sem culpa") oferece sua vida como representante da vida de um ser humano imperfeito, que não pode voltar para Deus sem morrer. O animal morre do lado de fora do espaço da tenda sagrada, permitindo que o sacerdote humano carregue seu sangue e "atravesse" aquela fronteira perigosa com os querubins e a espada flamejante, entrando, assim, no Éden simbólico. Nesse lugar, a vida do animal inocente pode apelar pela misericórdia de Deus em favor de outra pessoa, e Deus responderá a esse apelo. O animal morre pelo humano, em favor do humano e no lugar do humano, permitindo que a pessoa viva "através" da morte e se una novamente a Deus.

É fundamental entender que as pessoas não se aproximam de Deus apenas na esperança de que ele talvez mostre misericórdia por causa do sacrifício. Em vez disso, Deus estabelece todo este processo. Em Levítico 17:11, Deus diz: "Eu dei o sangue da vida a você no altar". Quando as pessoas dão a vida desses animais a Deus, elas estão vendo Deus dar o animal a Deus, que então o aceita.

Por meio de todas essas instruções sobre as ofertas de animais, Deus está mostrando às pessoas que a morte real acontece como resultado das escolhas que se opõem à sua vontade. Elas experimentam as consequências palpáveis e sangrentas dessas escolhas. Mas elas também veem como Deus deseja preservar a vida humana por meio da morte. Um representante passa pelas chamas em favor de outro, entregando e preservando a vida. É como se Deus tivesse projetado um tipo de morte que, em última análise, não destrói o ser humano. É uma morte que vence a morte.

Muito além dos espaços e sacrifícios sagrados

Mais adiante na história, quando Israel finalmente se estabelece em sua própria terra, a mesma dinâmica básica continua presente no templo. Nesse lugar, o santo dos santos ainda é guardado por um véu com imagens bordadas dos dois querubins do portão do Éden, e o altar (espada flamejante) continua ocupando um lugar central.

Seja no jardim, no tabernáculo e agora no templo, ninguém consegue passar pelo bloqueio dos querubins e alcançar o lugar da presença de Deus. Isso porque, assim como os primeiros humanos, todos fomos corrompidos pela morte ao escolher confiar mais em nossa própria sabedoria do que na sabedoria de Deus. O símbolo dos dois querubins nos lembra que todos estamos fora do jardim, desconectados de Deus e retornando ao adamah, ou seja, ao pó. Mas o símbolo do sacrifício de animais para entrar em sua morada semelhante a um jardim sugere que nem mesmo a morte pode impedir a vontade de Deus de se reconectar com a humanidade e restaurar a vida eterna para ela. Ele nos ama demais para nos abandonar.

Séculos de sacrifícios rituais se passam, e embora as ofertas e observâncias religiosas instruam as pessoas e forneçam orientação, elas ainda não conseguem mudar a realidade ou resolver o problema. As pessoas continuam enfrentando guerras, doenças e sepulturas. A realidade da vida fora do jardim pesa profundamente e cria um anseio intenso, uma expectativa esperançosa de que, em algum momento, Deus acabará totalmente com a corrupção e a morte.

E isso nos leva de volta à morte de Jesus na cruz.

Por que Jesus morreu?

As primeiras frases do Evangelho de João apresentam uma reviravolta cósmica no enredo. O Deus Criador infinito do cosmos, que é imutável, insondável e invencível, se une humildemente a nós em nosso estado corrompido e mortal fora do jardim.

Somos informados de que Deus "tabernacula", ou seja, estabelece sua morada entre nós, tornando-se humano e se unindo a nós fora do Éden (Jo 1:14). Ao escolher estar conosco, Deus também está escolhendo experimentar a morte. Nesse sentido, Jesus morre porque morremos.

O relato inicial da Bíblia hebraica, nos primeiros capítulos de Gênesis, nos mostra que reunir-se com Deus e retornar à vida eterna do jardim exige a morte real (lembre-se dos símbolos de querubins e da espada flamejante). E lembre-se de que essa entrada mortal de volta ao jardim diz respeito a renunciar às nossas próprias definições de bem e mal, que nos conduzem à morte. Por meio das ofertas de animais nos rituais do tabernáculo e do templo, Deus diz ao seu povo que pretende se reunir com eles e preservar suas vidas por meio da morte.

Agora, Deus se torna um verdadeiro humano e experimenta essa mesma morte. O apóstolo Paulo diz em 2Coríntios 5:21 que Jesus “se tornou pecado por nós”, embora ele “não tenha conhecido pecado”. Jesus assume a dor e a morte da carne corrompida compartilhada por toda a humanidade, embora ele nunca conheça ou escolha o pecado. Aqui, aprendemos sobre o significado da cruz. Deus oferece sua própria vida humana por amor a nós, isto é, em nosso favor e para o nosso benefício.

Em Cristo, Deus nos encontra fora do jardim e, por meio da morte, atravessa o bloqueio letal da espada dos querubins que protege a entrada de volta. Durante a crucificação de Jesus em Jerusalém, assim que ele morre, o véu bordado com querubins do templo que protege o caminho para o santo dos santos é rasgado ao meio, de cima para baixo. O acesso à presença de Deus é restaurado! Nesse sentido, Jesus morre para abrir o caminho, para que a humanidade retorne a Deus (veja Jo 10:9-10; Jo 17:20-23).

E quando Jesus ressuscita como o mesmo humano, ele revela um segredo bem escondido sobre a morte. Partimos (razoavelmente) do pressuposto de que a morte marca o fim da vida humana, mas a ressurreição de Jesus diz o contrário. A ressurreição de Jesus significa que somos seus verdadeiros irmãos e irmãs e que um dia nos uniremos a ele na vida da ressurreição. Sua morte e ressurreição proclamam: "O fim sem vida que você teme não é real! Deixe que o amor pelo estilo de vida contínuo de Deus substitua o seu medo da morte!"

O medo da morte é mais uma mentira da serpente, que nos leva a acumular recursos em vez de viver generosamente. O medo da morte nos engana, levando-nos a lutar com nosso próximo e a forjar espadas para matar inimigos. Todos nós vivemos fora do jardim, e o instinto de autoproteção movido pelo medo está enraizado em nosso DNA. Não há como escapar. A menos que alguém verdadeiramente humano nos revele que a morte é temporária e não o fim definitivo. Um outro motivo pelo qual Jesus morre é para demonstrar exatamente isso. E ao prestarmos atenção a ele, seu modo de amar vai, pouco a pouco, eliminar todo o temor da morte.

Podemos começar a perdoar e amar em vez de odiar e julgar. Começamos a abençoar e não amaldiçoar, e a transformar nossas espadas violentas em ferramentas de jardim frutíferas (veja Is 2:1-4). Jesus nos mostra que a morte é brutalmente trágica, mas não é o fim. Nossas vidas ganham força e clareza ao dedicá-las livremente a aprender os caminhos contínuos e amorosos de Deus para viver em comunidade, como em um jardim.

Conclusão

Ainda pairam muitas questões e pensamentos sobre a morte de Jesus na cruz, mas, quaisquer que sejam as respostas ou teorias que exploremos, podemos lembrar que Jesus morre por nós de mais de uma maneira. Muitas explicações interligadas, sutis e belas se desenvolvem ao longo da história bíblica, e podemos lembrar, a partir da narrativa do Antigo Testamento e da história de Jesus no Novo Testamento, que Jesus é compelido a morrer por nós devido ao seu amor imortal.

"Deus demonstra seu próprio amor por nós", diz o apóstolo Paulo, "porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores" (Rm 5:8). O amor de Deus é revelado mais plenamente na morte de Jesus, quando o próprio Deus entra em nosso mundo de morte e pó, para que, nele, possamos continuar vivendo através da morte e retornar à vida boa e eterna com Deus.

Tudo isso, e muito mais, é o que Paulo quer dizer quando afirma que “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras”. Jesus morreu por nós porque nos ama.