O que Jesus quis dizer com "dar a outra face" em Mateus 5:39?

Vencendo o mal por meio de atos criativos de resistência não violenta

Por BibleProject Scholarship Team
20 de maio de 2024
11 min de leitura

Depois de anos escondendo os hematomas, uma mulher confidencia a uma amiga sobre os acessos de violência do marido. Sua amiga a aconselha a se submeter ao marido, explicando que, no Sermão do Monte, Jesus ensina que devemos "dar a outra face". Mas será que é isso que Jesus realmente quis dizer? Ele está realmente ensinando as pessoas a permanecer passivas em situações de abuso?

A instrução de Jesus de dar a outra face, encontrada em Mateus 5:39, na verdade significa mudar o rumo daqueles que buscam nos prejudicar e vencer o mal por meio de atos criativos de resistência não violenta. Jesus não está afirmando que nunca deveríamos resistir àqueles que buscam nos prejudicar. Na verdade, isso seria uma contradição com o princípio da lex talionis da Bíblia hebraica, que Jesus cita: "olho por olho e dente por dente". (1) O objetivo deste princípio é estabelecer a justiça e conter a vingança. Assim, se alguém arrancar um dos nossos dentes com um soco, não podemos arrancar cinco deles em retaliação.

Na mesma frase, Jesus chama as pessoas a "não resistir a um malfeitor" (2), mas a dar a outra face. Isso cumpre a intenção da lex talionis de trazer a verdadeira justiça de uma maneira nova e criativa, que se recusa a retribuir o mal com o mal. Em outras palavras, dar a outra face evita os dois extremos de retaliar violentamente e permitir passivamente que outros façam o que quiserem conosco.

A bofetada no tempo de Jesus

Nos tempos de Jesus, esbofetear alguém era uma ofensa grave, mas não era visto como uma agressão violenta. Aqui, Jesus fala especificamente de um tapa na bochecha direita, o que sugere uma bofetada dada com as costas da mão. Bater em alguém com as costas da mão (3) podia exigir uma multa dobrada, pois era “a ofensa pública mais grave à dignidade de uma pessoa”. (4)

Mas Jesus não está sugerindo que seus seguidores devem ficar de braços cruzados e aceitar insultos. Primeiro, dar a face esquerda era uma rejeição ousada do próprio insulto. Em segundo lugar, isso desafiava o agressor a repetir a ofensa, exigindo que agora ele golpeasse com a palma da mão — algo feito não a uma pessoa de status inferior, mas a alguém de mesmo status. Em outras palavras, dar a outra face declara com firmeza que o opositor não detém poder para causar vergonha, porque a honra da vítima não depende da aprovação humana, ela vem de outro lugar. (5) Esse tipo de ação remodela o relacionamento, forçando o adversário a recuar ou a tratá-lo como igual.

Dando sua capa a uma pessoa gananciosa

Em um outro exemplo de como não resistir a um malfeitor, Jesus diz: "Se você for processado no tribunal e lhe tomarem a roupa do corpo, deixe que levem também a capa." (6) Ele está ensinando as pessoas a resistir à ganância destrutiva com a generosidade criativa.

Neste caso, uma pessoa gananciosa oprime um pobre com um processo injusto e exige sua roupa íntima como garantia. A lei da Bíblia hebraica permite que os israelitas usem também a roupa externa, ou capa, como garantia de um empréstimo, mas ela deve ser devolvida até o anoitecer, pois a pessoa provavelmente precisa dela para se aquecer. (7) Desistir voluntariamente da capa seria extremamente generoso. Jesus está ensinando um estilo de vida que confia no poder de uma resposta generosa e não retribui a ganância com ganância.

Além disso, alguns intérpretes entendem que o ensinamento de Jesus significa que quem oferece tanto a roupa quanto a capa ficaria completamente despido, o que representa "uma desonra intolerável na sociedade judaica palestina". (8) Seja qual for a intenção de Jesus sobre a ideia de ficar despido, quem cede a capa (e a roupa) está, provavelmente, abrindo mão da proteção contra o frio e de certo status social. A pessoa fica em uma posição extremamente vulnerável. Essa vulnerabilidade óbvia força o oponente a confrontar publicamente sua ganância insensível ao literalmente tirar as roupas das costas da outra pessoa. (9) E a generosidade radical dessa pessoa apresentaria um contraste impressionante com a postura firme do oponente.

Caminhando uma milha a mais por um opressor

Como último exemplo de como não revidar ao mal com o mesmo tipo de ação, Jesus diz: "Se alguém o obrigar a andar uma milha, vá com ele duas." (10) No mundo do primeiro século, soldados romanos podiam obrigar alguém a carregar suas cargas por até uma milha romana (1.000 passos). (11) A prática reduzia a pessoa a um objeto, um trabalhador forçado sob o controle do império.

Jesus está falando a um grupo de judeus oprimidos que sofreram sob séculos de ocupação estrangeira. Após vivenciarem humilhação, perseguição e opressão pelos romanos, eles ficariam chocados com a exortação de Jesus de não apenas obedecer, mas dar de si mais do que o pedido.

Carregar a carga de um soldado por mais uma milha transforma a dinâmica da interação. Em vez de aceitar passivamente o tratamento degradante, as pessoas que seguem o ensinamento de Jesus resistem de forma criativa à opressão e afirmam sua dignidade ao escolher deliberadamente caminhar essa segunda milha. Eles estão tratando o soldado romano com generosidade, da mesma forma que fariam com amigos ou familiares.

Na verdade, Jesus resume seu ensino com um encorajamento geral a seus seguidores a fazer da generosidade um sinal importante de relacionamentos justos com os outros, (12) ecoando Provérbios 25:21-22: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele, e o Senhor recompensará você.” Provérbios 25:21,22Se seu inimigo tiver fome, dê a ele comida; se tiver sede, dê a ele água de beber, pois você amontoará brasas ardentes sobre a cabeça dele." (13)

Afirmando a dignidade com amor e generosidade

Em todos os três exemplos de Jesus, "resistir na mesma moeda" perpetuaria o ciclo de violência. Como diz Martin Luther King Jr.: "A fraqueza máxima da violência é que ela é uma espiral descendente, gerando exatamente aquilo que procura destruir. Em vez de diminuir o mal, ela o multiplica. [...] Retribuir violência com violência multiplica a violência, trazendo uma escuridão ainda maior a uma noite já sem estrelas." (14)

Jesus convida seus seguidores a entrar nos caminhos do reino invertido de Deus. Em vez de retaliar contra o insulto ou a injustiça, ele os chama a se envolver em atos criativos de resistência, caracterizados pelo amor e pela generosidade. Dar a outra face significa ver e tratar todos como pessoas criadas à imagem de Deus, sempre buscando o seu bem maior.

Como observa Anna Case-Winters (15), isso pode dar a entender que estamos colocando uma pessoa no papel de "vítima passiva", mas, na verdade, faz dela "um agente que exerce poder de forma positiva e não convencional. O que poderia ter sido uma humilhação é recebido com um ato de generosidade que afirma a dignidade e um convite implícito ao inimigo, agressor ou importunador para um tipo diferente de interação." (16)

Jesus nos ensina a evitar tanto retroceder em medo passivo quanto a retalição por meio de palavras ou ações violentas. Em vez disso, podemos seguir o exemplo de Jesus e nos aproximar dos inimigos com criatividade, amor e generosidade. Ao tratá-los como amigos, os convidamos a refletir sobre seu comportamento e considerar uma nova maneira de se relacionar conosco.

Restaurando relacionamentos

O ensinamento de Jesus de "dar a outra face" tem como objetivo restaurar a harmonia que Deus pretendia para a humanidade desde o início da Criação. Ao tomar do fruto da árvore que Deus lhes disse para evitar, os seres humanos decidiram rejeitar a sabedoria divina e agir conforme seu próprio julgamento. Essa rejeição rapidamente levou a um ciclo de violência e retaliação. Vemos este desejo de vingança e a escalada da brutalidade na história de Lameque, que matou um homem por ter sido agredido por ele. (17)

No entanto, o objetivo da lex talionis — "olho por olho e dente por dente" (1) — era limitar a escalada de retaliações violentas. Em outras palavras, ela buscava interromper o ciclo crescente de violência, impedindo que as pessoas buscassem vingança pessoal e garantindo que a punição nunca fosse superior ao crime.

Cumprir a intenção central da lex talionis significa buscar a verdadeira justiça. E a verdadeira justiça remodela a relação entre vítima e agressor; ela traz a restauração para todos os envolvidos. Vemos um exemplo impressionante na história de José.

José dá a outra face

Invejosos do favoritismo de seu pai em relação a José, seus meio-irmãos o vendem como escravo no Egito, onde ele acaba conquistando uma posição de poder. Quando seus meio-irmãos vêm ao Egito para comprar comida durante um período de fome, eles não reconhecem José, se apresentando agora como um funcionário egípcio. Mas José os reconhece e ele deve fazer uma escolha. Ele pode usar seu poder como um alto funcionário do governo para se vingar, pode deixar que a justiça seja aplicada pelos tribunais, pode ignorar passivamente a ofensa de seus meio-irmãos e agir como se nada tivesse acontecido ou pode "dar a outra face", como forma de testá-los.

José escolhe a última opção: dar a outra face. Ele quer ver se eles repetirão a ofensa, permitindo que seu único irmão de sangue, Benjamim, seja levado como escravo. (18) José dá a seus meio-irmãos a oportunidade de confrontar o que fizeram com ele (19) e escolher agir de forma diferente. E quando eles mostram o quanto mudaram, lágrimas de amor e dor escorrem pelo rosto de José enquanto ele generosamente oferece perdão. (20)

Jesus dá a outra face

O próprio Jesus demonstra para seus seguidores como dar a outra face. Em certos momentos, quando seus opositores buscam destruí-lo, ele escolhe se afastar, escapando deles. Ele discerne com sabedoria quando é melhor esperar do que enfrentar imediatamente uma ameaça.

Em outras ocasiões, ele enfrenta seus oponentes cara a cara com generosidade criativa. Em seu exemplo supremo sobre dar a outra face, Jesus permite que seus inimigos o acusem falsamente, o prendam e o condenem antes de o submeter a uma intensa humilhação pública e ao assassinato brutal em uma cruz romana. Enquanto tudo isso acontece, Jesus dá a outra face aos que o golpeiam, entrega suas vestes e carrega sua cruz por mais uma milha. (21) Ele não é passivo ou relutante; ele não é uma vítima impotente. Com imenso poder, ele aceita deliberadamente o tratamento malicioso de seus opositores, porque sabe que eles não têm capacidade de, em última instância, tirar sua honra ou sua vida.

Jesus ativamente entrega sua vida; ele não retalia nem retribui qualquer tipo de mal pelo mal que lhe é feito. Ele ama seus inimigos até o fim, orando pelo perdão deles com seu último suspiro. (22)

A resposta do amor à injustiça

Para uma mulher abusada que busca ajuda desesperadamente, afastar-se da situação, assim como remover outras vítimas do contexto de abuso, é muitas vezes a ação mais sábia. Essa ação não apenas fortalece a autonomia da mulher, como também pode ser a resposta mais amorosa que poderia oferecer ao agressor. Ao separá-lo das pessoas que são alvo de seu abuso, ela pode impedir que ele continue com comportamentos destrutivos tanto para si quanto para os outros.

Também podemos estender o princípio de dar a outra face a situações em que pessoas ao nosso redor são prejudicadas. Quando Jesus se depara com injustiça no templo, ele derruba as mesas dos cambistas e os chama de volta ao propósito de Deus de que o templo seja uma "casa de oração" para todas as pessoas. (23) Embora as ações de Jesus sejam intensas, elas não são destrutivas ou vingativas. Ao confrontar a injustiça dos cambistas, ele os convida a reconsiderar seu comportamento.

Quando vemos pessoas que são maltratadas, é tentador lutar contra o agressor ou evitar a situação. Mas o princípio de dar a outra face nos leva a nos solidarizar com as vítimas, expondo a injustiça ou confrontando um opressor.

Quer ele se submeta, se retire ou confronte, Jesus sempre estabelece os termos do encontro. E ele sempre age com amor pelo bem dos outros, até mesmo de seus inimigos. "O amor implica a resistência à injustiça usando métodos não violentos", diz o teólogo Naim Ateek. "Isso não é feito por ódio nem com a intenção de destruir o inimigo, mas para obrigar os autores da injustiça a corrigirem o que é errado e se dedicarem a agir de maneira justa e correta." (24)

Em última análise, a Bíblia espera pelo dia em que "não ouviremos mais sobre a violência" (25) e ninguém praticará o "mal ou a destruição". (26) Isso acontecerá à medida que Deus renova sua intenção original de que as pessoas vivam para sempre em um mundo onde todos agem para o bem maior dos outros. (27) Esse é o caminho do reino de Deus. E Jesus diz que este reino está próximo, começando agora. A renovação não está completa, mas já está em andamento, e podemos entrar e experimentá-la hoje, todos os dias.

Embora nem todos nos tratem com o amor e a dignidade que Deus deseja, podemos escolher incorporar o reino de Deus ao dar a outra face quando as pessoas buscam nos prejudicar. Com criatividade e sabedoria, podemos discernir como aplicar essa visão em qualquer situação. (28) E não precisamos ficar ansiosos em encontrar a resposta "certa". Observando a vida de Jesus, podemos treinar nossa imaginação para elaborar respostas criativas e mais eficazes a cada novo desafio. Quando escolhemos resistir ao mal através de atos de amor, em vez de perpetuar ciclos de violência, nos tornamos sinais da nova Criação, onde a paz e a justiça reinam.

  1. Mt 5:38; veja Êx 21:23–24; Lv 24:19–20; Dt 19:21.
  2. Mt 5:39a (tradução do BibleProject).
  3. Mishnah Baba Qamma 8:6-7.
  4. Craig S. Keener, The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2009), 197.
  5. Keener, The Gospel of Matthew, 198.
  6. Mt 5:40 (tradução do BibleProject).
  7. Veja Êx 22:25–27; Dt 24:10–13.
  8. Keener, The Gospel of Matthew, 198.
  9. Veja mais David E. Garland, Reading Matthew: A Literary and Theological Commentary (Macon, GA: Smyth e Helwys), 74.
  10. Mt 5:41 (tradução do BibleProject).
  11. Para um exemplo, veja Mt 27:32.
  12. Mt 5:42.
  13. Tradução NVI.
  14. Martin Luther King Jr., Where Do We Go from Here: Chaos or Community? (Boston: Beacon, 1967), 62.
  15. Professor de teologia no Seminário Teológico McCormick.
  16. Anna Case-Winters, Matthew, Belief: A Theological Commentary on the Bible (Louisville: Westminster John Knox, 2015), 82, 84.
  17. Gn 4:23–24.
  18. Gn 42–44.
  19. Gn 42:21–22.
  20. Gn 44:14–45:15.
  21. Mt 26:67; 27:35; Jo 19:17; veja também Dennis T. Olson, "Loving Enemies as Being Birthed into God's Creation-Wide Family: A Homiletical Exploration of Matthew 5:38–48," Word & World: Supplement Series 5 (2006): 64.
  22. Lc 23:34.
  23. Veja Is 56:7, que Jesus cita.
  24. Naim Ateek, “Who Is My Neighbor?”, Interpretação 62 (2008): 165.
  25. Veja Is 60:18.
  26. Veja Is 65:25.
  27. Veja Fp 2:1–10.
  28. Veja também Jonathan T. Pennington, The Sermon on the Mount and Human Flourishing: A Theological Commentary (Grand Rapids: Baker Academic), 197–198.