O que é o Pentecostes e por que ele é importante?

Começa um novo mundo

Por Ben Tertin & BibleProject Team
4 de maio de 2023
7 min de leitura

Pentecostes é uma festa judaica da colheita que existe há séculos, uma celebração cristã tão antiga quanto a própria Igreja de Jesus, e uma palavra grega que significa “quinquagésimo”. O Pentecostes narrado no Novo Testamento aconteceu no primeiro século, em Jerusalém — uma ocasião em que, digamos, as cabeças das pessoas pegaram fogo. Durante esse evento, um vendaval surgiu dentro de casa, no meio de uma festa lotada, e todo mundo ficou sem entender nada — alguns até entraram em pânico. E então, de repente, as pessoas que estavam com as cabeças em chamas começaram a falar várias línguas.

Por si só, a história de Pentecostes em Atos 2 parece um pouco bizarra. Mas, ao enxergar o que aconteceu no dia de Pentecostes dentro da narrativa mais ampla da Bíblia, a história faz muito mais sentido. Lucas, o autor de Atos, é um historiador, não um repórter. Ele está nos contando o que aconteceu, escrevendo uma história que intencionalmente se conecta com os padrões e temas repetidos do Antigo Testamento. E esta não é a primeira vez que um fogo divino e resplandecente aparece do nada sem consumir o que toca.

Quando vemos o primeiro Pentecostes (em Atos 2) em contexto, observamos que não se trata apenas de Deus dando instantaneamente às pessoas habilidades linguísticas ou do sinal ardente da presença do Espírito Santo. Esta história também marca o início de um novo mundo.

O dia de Pentecostes: Atos 1-7
6:22
Lucas-Atos
O dia de Pentecostes: Atos 1-7

O fogo antigo e, ao mesmo tempo, novo que Pentecostes acende

Na Bíblia hebraica, misteriosas tempestades de vento com fogo ou relâmpagos são constantemente associadas a duas coisas: a presença de Deus e a formação de um templo.

Yahweh se torna presente a Moisés através do fogo de um arbusto em chamas chamado seneh (que soa muito como "Sinai" e prevê o que acontece lá mais tarde). Nessa cena famosa, Deus fala na própria linguagem de Moisés e diz a ele que está em terra santa, o que implica que este lugar é como um templo. E então Deus promete capacitar Moisés para ajudá-lo a libertar Israel da opressão (Êx 3).

Moisés liberta seu povo da escravidão, e eles viajam para o Monte Sinai, onde um fogo maior irrompe na montanha sob a forma de uma tempestade de vento e fogo (relâmpagos) (Êx 19:18-20). Como antes, este fogo sinaliza a presença de Deus, marcando esta montanha como a morada de Deus e um templo simbólico. O povo fica confuso, surpreso e até mesmo assustado (Êx 20:18). No entanto, Deus garante que está cooperando com eles para o seu benefício, e não para prejudicá-los. E ele dá dez mandamentos como orientação para a vida, e todos concordam em viver de acordo com eles.

Mais tarde, quando o tabernáculo é construído nessa mesma montanha, Deus aparece em uma enorme coluna de fogo, pairando acima dela. O fogo sinaliza a presença de Deus e marca este espaço como sua morada. Quando Israel constrói um templo permanente, o mesmo fogo aparece como a “glória da habitação” de Deus. Este é um sinal tangível de que a presença de Deus se estabeleceu em seu templo em meio à vida comunitária de seu povo.

As histórias de Moisés e da sarça ardente, do Monte Sinai, do tabernáculo e do templo incluem sempre o fogo, que aparece quando a presença de Deus chega e marca o seu espaço ou templo. Em Atos 2, Lucas faz referência a essas cenas anteriores de fogo divino para dar um pano de fundo à história de Pentecostes. O fogo divino já repousou no templo de Yahweh antes, mas onde ele repousou nesta cena?

Trata-se de um templo formado por “cada um deles”. É um templo feito de pessoas. As pessoas se encontrarão com Deus não em um lugar geográfico ou em um espaço construído, mas na comunhão com aqueles que escolhem confiar e seguir Jesus. O fogo de Deus brilha com poder, sem ferir ninguém, e acende uma revolução cósmica: a Igreja. A narrativa nos diz que agora Deus habita dentro da comunidade de seguidores de Jesus. Este templo vivo é feito de pessoas que operam como Jesus, acabando com o medo e a opressão com amor e ensinando pacificamente a humanidade a amar e abençoar uns aos outros. Nesse sentido, Pentecostes marca o início de um novo mundo.

Quando é Pentecostes? E como isso se relaciona com o Reino de Deus?

Para muitas tradições litúrgicas e de outras igrejas, o domingo de Pentecostes acontece 50 dias depois da Páscoa e celebra o início da Igreja. Lembre-se de que, neste momento da história, Jesus já ressuscitou depois de sua crucificação brutal e se reconectou com seus mensageiros (os apóstolos) para dar instruções para sua próxima missão.

Lucas diz que, depois de ressuscitar, Jesus apareceu aos apóstolos e "falou sobre as coisas relativas ao Reino de Deus" (At 1:3). Com certeza isso os deixaria cheios de esperança e empolgação. Durante séculos, Deus havia prometido que um dia acabaria com impérios humanos opressores, estabelecendo seu próprio império conosco, integrando totalmente seu modo de vida no céu com nosso modo de vida na terra.

Com o céu e a terra completamente unidos, o mal não tem onde residir. Estabelecer o reino de Deus significa acabar com o mal, o que acontece não através da força violenta ou ameaças coercitivas, mas através da bondade e do perdão paciente. É um mundo guiado pelo amor, e não pelo medo.

Empolgados com essa boa notícia, esses apóstolos estão prontos para agir! Mas Jesus retoma as palavras do profeta Isaías e diz a eles para permanecerem em Jerusalém. Ele quer que esperem pelo momento em que "serão batizados com o Espírito Santo", ecoando o profeta Isaías (veja Is 32:15) e acrescentando que isso acontecerá em breve (At 1:4-6). Mas eles têm algumas perguntas sobre isso.

Os apóstolos perguntam: “É neste momento que você vai restaurar o reino de Israel”? Jesus diz a eles que "não lhes compete saber" os detalhes dos tempos (At 1:7). Eles ficam desanimados e confusos, mas Jesus garante que esse batismo do Espírito Santo os capacitará a serem suas testemunhas em todo o mundo, em todos os lugares e, eventualmente, para todas as pessoas (At 1:8).

Este é o início de um novo mundo. O velho mundo cria inimigos e causa divisão entre as pessoas, afirmando falsamente que alguns podem ser amados e outros descartados, mas não é assim no reino de Deus! No império de Deus, todas as pessoas se amam mutuamente sem parcialidade (veja At 10:34-43; Rm 2:11).

O significado do Pentecostes

O Pentecostes deu início a um esforço internacional para incluir todos, judeus e não judeus, na família de Deus, e essa é uma das razões pelas quais vemos o milagre de “falar em línguas” acontecendo. Em grego, "línguas" pode se referir a línguas humanas reais, e esse parece ser o objetivo de Lucas em Atos 2:8. Lucas levanta a pergunta que todos estavam fazendo: "Como é que cada um de nós os ouve em nossa própria língua em que nascemos?"

Os apóstolos de Jesus eram todos judeus e pertenciam a uma pequena região, o norte da Galileia, em Israel (At 2:7). Eles falam a mesma língua. Portanto, se apenas eles fossem levar as boas notícias de Jesus a todo o mundo seria complicado. Mas, e se o mundo inteiro viesse até eles e eles rapidamente se tornassem poliglotas?

Em Atos 2:5, Lucas diz que judeus "de todas as nações debaixo do céu" estavam se reunindo em Jerusalém na época da festa de Pentecostes. O que é a Festa de Pentecostes? Trata-se de uma importante festa judaica da colheita, também chamada de Shavu'ot, ou Festa das Semanas, que aconteceu 50 dias depois da Páscoa. É um dos três festivais principais que trouxeram centenas de milhares de peregrinos a Jerusalém para uma grande celebração.

O "mundo inteiro" tinha vindo até eles. E, quando o vento e o fogo apareceram, todos ficaram "perplexos, porque cada um estava ouvindo [cada um dos apóstolos] falar em sua própria língua" (At 2:6).

É quase como se Isaías estivesse prevendo esse Pentecostes em Atos 2 no Antigo Testamento. Quando Isaías prometia a restauração futura de Israel, ele proclamava em nome de Yahweh: “Você são minhas testemunhas… e eu sou Deus.” Desde os dias mais antigos, eu o sou" (Is 43:12-13). Agora, o povo ouve Jesus dizer: "e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra" (At 1:8). Essa é uma afirmação que afeta o mundo inteiro e ninguém é deixado para trás.

Os apóstolos são testemunhas da ressurreição de Jesus e do amor profundo e inabalável de Deus por todas as pessoas. E para ajudá-los a falar com todos ao redor do mundo, Deus lhes dá o dom de falar várias línguas instantaneamente, no meio de uma enorme multidão de viajantes de diferentes nações. Vale lembrar: Isaías falou em nome de Yahweh ao escrever antecipadamente sobre esse tipo de missão. "Também farei de você uma luz para as nações, para que minha salvação possa chegar aos confins da terra" (Is 49:6).

Este é o momento em que o fogo divino de Deus identificou o novo templo, o novo lugar onde céu e terra se encontram, que é a comunidade da Igreja formada pelo povo de Jesus. O templo de Deus não é uma montanha, nem um prédio bonito ou um lugar sagrado. Não, o templo de Deus é feito de homens e mulheres improváveis. A morada de Deus está nas pessoas que dão testemunho do Jesus ressurreto, vivendo segundo o seu caminho de amor. E o mundo inteiro acabará encontrando Deus por meio dessa comunidade de pessoas que amam a Deus e aos outros como Jesus.

Conclusão

Afinal, o que é o domingo de Pentecostes? Trata-se desse momento inesperado (mas, ainda assim, esperado) na Jerusalém do primeiro século, quando as cabeças dos apóstolos pegaram fogo quando uma estranha tempestade de vento invadiu uma festa lotada de viajantes internacionais. Trata-se do dia previsto por todas as passagens que falam de vento e fogo no Antigo Testamento, e que Jesus prometeu quando citou o profeta Isaías.

É o momento em que sua Igreja amorosa começou, e é o início de um mundo novo e pacífico. Feliz Pentecostes!