O fruto do Espírito e seu significado na Bíblia
Características divinas que se formam em pessoas que andam pelo Espírito
O apóstolo Paulo descreve o “fruto do Espírito” como “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gl 5:22–23, NVI). Essas qualidades refletem o caráter de Deus e o comportamento daqueles que vivem de acordo com o Espírito de Deus.
Quando participamos da obra de Deus, somos como novos ramos enxertados em uma videira viva, que começam a produzir o fruto dessa videira (veja Jo 15:1–11). Portanto, se Deus é amoroso, paciente e transmite paz constante, então, à medida que participamos da obra de Deus, produziremos esse mesmo fruto espiritual, como amor, paciência e paz.
Podemos compreender melhor a natureza e o propósito desses frutos espirituais explorando sua fonte e a maneira cheia de nuances como eles se conectam a outras partes das Escrituras.
A fonte do fruto do Espírito
Ao descrever essas características como o fruto do Espírito, o apóstolo Paulo está dizendo que elas vêm do Espírito Santo, que é Deus. O Espírito as cultiva em nós como parte da obra de Deus de restaurar toda a criação. Para saber mais sobre quem é o Espírito e sobre sua obra transformadora, assista a este vídeo sobre o Espírito Santo.

Não podemos produzir fruto espiritual por conta própria. Não podemos simplesmente decidir ser mais mansos, nem nos esforçar para sermos mais alegres ou fiéis. Mas as Escrituras sugerem que, de alguma maneira, os seres humanos ajudam a criar as condições necessárias para que o fruto espiritual cresça. Para que a vida da videira produza fruto em nós, precisamos permanecer firmemente ligados à videira, escolhendo seguir o modo de vida de Deus em vez de seguir o nosso próprio caminho.
Ao escrever sua carta às igrejas da Galácia, Paulo demonstra frustração porque muitos estão se desconectando do modo de vida de Deus. Em vez de confiar no evangelho de Jesus, eles começaram a seguir um “evangelho diferente” (veja Gl 1:6–7). Como resultado, estão aceitando ou rejeitando uns aos outros com base em tradições humanas e posição social, em vez de compartilhar e experimentar juntos o amor gracioso de Deus. Eles estão adotando um modo de vida marcado pela divisão, que se opõe ao Espírito de Deus e trabalha contra o evangelho amoroso e unificador de Cristo (veja Gl 3:28–29).
Por isso, Paulo os ensina a voltar ao verdadeiro evangelho de Jesus e a participar da obra do Espírito, em vez de se opor a ela, criando assim as condições necessárias para que o fruto espiritual cresça. Paulo encoraja as pessoas a “andar (ou viver) pelo Espírito” (Gl 5:16). Mas o que isso realmente significa?
Algumas tradições explicam que andar pelo Espírito é uma espécie de entrega pessoal à obra transformadora do Espírito em nossa mente e em nosso coração. À medida que o Espírito transforma nosso coração, nosso comportamento também muda, levando-nos a produzir fruto. Outras tradições entendem que andar pelo Espírito significa escolher confiar em Deus seguindo suas instruções. Por exemplo, escolher amar e perdoar nosso próximo também é escolher participar da obra do Espírito de Deus, o que leva à produção de cada vez mais fruto espiritual.
Seja como for que entendamos essa interação misteriosa entre a ação divina e a ação humana, Paulo nos convida a cooperar com aquilo que o Espírito está fazendo em nós, para que possamos participar da obra de Deus de restaurar todas as coisas, inclusive nossa própria vida.
A imagem do fruto usada por Paulo remete à árvore da vida no jardim do Éden (Gn 2–3). Ela também nos lembra da árvore metafórica do Salmo 1, que sugere que as pessoas podem ser como árvores fortes que dão fruto no tempo certo quando estão plantadas junto a “correntes de águas” (Sl 1:3).
A água do salmo 1 simboliza a torah de Deus, isto é, sua “lei” ou “instrução” (veja Sl 1:2). Mas, em outras partes da Bíblia, correntes de água também podem representar o Espírito (veja Is 44:3), que nos capacita a seguir os ensinamentos de Deus (Ez 36:26–27).
À medida que bebemos da água nutritiva do Espírito, confiando em Deus e seguindo sua instrução, crescemos como árvores fortes e cheias de vida, produzindo frutos que trazem cura e restauração ao mundo ao nosso redor.
Os frutos individuais do Espírito
Ao listar os diferentes frutos em Gálatas 5:22–23, Paulo não está tentando apresentar uma lista completa. Ele poderia ter incluído características como compaixão e humildade (veja Cl 3:12) ou perseverança (veja 2Tm 3:10).
Mas os nove frutos mencionados por Paulo em Gálatas oferecem um retrato resumido de como é viver pelo Espírito. Por isso, vamos examinar os principais detalhes e nuances de cada um dos nove frutos apresentados por Paulo.
Amor
A lista de Paulo começa com o amor, o que não é surpreendente, porque ele ensina repetidamente que o amor é mais essencial à vida humana e ao florescimento espiritual do que qualquer outra coisa. Em 1Coríntios 13:4–7, ele o compara a outros frutos do Espírito para demonstrar a superioridade do amor. Como observa o estudioso do Novo Testamento Ernest DeWitt Burton, isso pode sugerir que Paulo considera o amor “a fonte da qual todos os outros fluem”.(1)
Na Bíblia, amor é um compromisso duradouro de estar com outra pessoa e agir em favor dela. Em outras palavras, o amor sempre escolhe agir de maneiras que promovam o bem maior do outro. O amor muitas vezes envolve sentimentos de ternura ou afeto, mas não é guiado nem definido exclusivamente pela emoção. Em sua essência, o amor é ação.
Os autores bíblicos explicam que o amor genuíno tem sua origem em Deus (1Jo 4:7–8), que é amor (1Jo 4:16) e age para o bem de toda a criação. Esse conceito de amor, que tem origem em Deus e dá vida, permeia toda a Bíblia.
O relato do Êxodo retrata Deus como um libertador divino que tira os cativos da escravidão e os acolhe em um relacionamento semelhante ao casamento. Deus está com eles e sempre age em favor do seu bem maior, apresentando uma imagem paradigmática do amor de Deus.
No Novo Testamento, o amor de Deus, que se entrega pelos outros, é revelado de maneira mais plena quando o Logos divino, ou a Palavra divina, assume carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré. Ao se tornar humano, Deus desce das alturas da vida divina infinita para entrar na realidade terrena de sofrimento e corrupção em que vivemos, a fim de curar a humanidade e toda a criação (veja Fp 2:3–11).
Assim, o amor consiste em entregar algo da própria vida, ou do próprio eu, para cuidar do outro.
O Espírito nos capacita a responder ao amor de Deus demonstrando esse mesmo amor generoso uns pelos outros (veja 1Jo 4:7–21). Na verdade, Jesus exorta seus seguidores a refletirem o amor de Deus não apenas por amigos e vizinhos, mas também por aqueles que se opõem a eles e por seus inimigos (Mt 5:44). O amor verdadeiro não faz acepção de pessoas. Ele trata todos como criação preciosa de Deus, reconhecendo que a imagem de Deus foi soprada, ou “espirituada”, em todo ser humano.
Dito isso, é importante observar que o amor não é um otimismo ingênuo que fecha os olhos para a corrupção e o mal. O amor depende do poder da mansidão, da misericórdia e da honestidade para confrontar o mal, a fim de corrigir injustiças e nos libertar de padrões prejudiciais de comportamento. E o amor oferece perdão, nunca usando os erros das pessoas contra elas e sempre trabalhando para restaurar os relacionamentos (1Co 13:4–7).
Alegria
A alegria é um tipo de deleite que faz o coração transbordar. Esse fruto do Espírito pode nascer da gratidão pelos muitos presentes de Deus ou da esperança na promessa de Deus de fazer novas todas as coisas.
Perceber a obra de Deus ao nosso redor, tanto no extraordinário (veja At 8:6–8) quanto no cotidiano (Ec 2:24–26), pode despertar alegria. Ela irrompe de repente ao recebermos um diagnóstico inesperado de que o câncer desapareceu e floresce lentamente enquanto apreciamos o aroma de um pão recém-assado. Uma brisa fresca de verão tocando nossa pele pode despertar alegria, assim como uma conversa significativa com amigos. Muitas vezes, a alegria surge quando nos deparamos com aquilo que é bom ou belo.
Mas a alegria não depende de experiências agradáveis nem de uma vida confortável e cheia de prazeres. Também podemos encontrar alegria em meio às dificuldades (veja 2Co 8:2). Tiago nos convida a “considerar motivo de grande alegria” quando “enfrentamos diversas provações”, reconhecendo que as dificuldades muitas vezes acompanham o processo pelo qual somos formados em pessoas “completas, sem que lhes falte coisa alguma” (Tg 1:2–4, tradução do BibleProject).
Isso não significa que a causa do sofrimento humano seja boa ou que as pessoas não devam lamentar quando estão sofrendo. Mas é possível que a alegria esteja presente mesmo em circunstâncias difíceis quando confiamos que a obra contínua de Deus está acontecendo e que ele sempre faz surgir beleza das cinzas (Is 61:3). É um tipo diferente de alegria, mais parecido com contentamento do que com euforia, que nos lembra que as lágrimas são temporárias no caminho de Deus para uma humanidade plenamente restaurada.
Seja aquele deleite que faz o coração transbordar, nascido de boas experiências, seja a sensação serena de confiança em Deus, conquistada em meio às dificuldades, na promessa de que ele acabará com todo sofrimento (Ap 21:3–5), a verdadeira alegria é um poderoso fruto do Espírito. Ela está disponível para cada um de nós, quaisquer que sejam as circunstâncias que enfrentemos. E nos alegramos ao perceber sinais da nova criação surgindo ao nosso redor.
Paz
A palavra grega para “paz”, eirene, se refere tanto à paz interior em nosso coração quanto à paz nos relacionamentos com outras pessoas. Em Gálatas 5, Paulo não especifica a qual delas está se referindo, e provavelmente tem as duas em mente. Jesus diz aos seus discípulos que, mesmo em meio a problemas e perseguições, eles podem ter paz porque ele “venceu o mundo” (Jo 16:33).
Por isso, Paulo nos convida a apresentar todas as nossas preocupações a Deus, porque ele sustenta o mundo em equilíbrio e reina soberano sobre todos os governantes terrenos. Isso permite que sua paz cresça em nosso coração e em nossa mente (Fp 4:6–7) como fruto espiritual.
Paulo também está profundamente preocupado com a paz e a unidade nos relacionamentos dentro da comunidade, chamando as pessoas a “buscar as coisas que promovem a paz e a edificação mútua” (Rm 14:19, tradução do BibleProject). O Espírito nos capacita a agir como promotores da paz, vivendo em harmonia com aqueles ao nosso redor e até mesmo entrando em conflitos para criar uma resolução pacífica.
Paciência
Imagine alguém com o nariz esticado como uma flauta, ou talvez como a tromba de um elefante. Essa imagem estranha pode nos ajudar a visualizar a expressão idiomática “narinas longas”, uma imagem importante na Bíblia hebraica para representar a paciência. Mas o que “narinas longas” têm a ver com ser paciente?
Assim como personagens de desenhos animados soltam fumaça pelas orelhas quando ficam furiosos, na imaginação dos antigos hebreus, a fumaça da ira saía pelo nariz. E ter narinas longas significava que a fumaça da ira demorava mais para aparecer. Em outras palavras, essa pessoa não reagia imediatamente com raiva.
Por isso, a expressão idiomática hebraica “narinas longas” costuma ser traduzida como “lento em irar-se” (veja Êx 34:6; Pv 15:18), e os primeiros tradutores gregos usaram a raiz makrothum, ou “paciente”, para transmitir essa ideia.
O Novo Testamento diz que Deus é paciente ao adiar o julgamento porque ele “não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3:9, tradução do BibleProject). À medida que o Espírito de Deus nos ajuda a enxergar as pessoas como Deus as vê, encontramos forças para também tratar as pessoas com a paciência de Deus.
Em vez de explodirmos em julgamento ou ira, podemos participar da obra de Deus e cultivar o fruto espiritual da paciência, estendendo misericórdia a todos, perdoando e apoiando as pessoas enquanto elas crescem.
Amabilidade e bondade
Esses dois próximos frutos espirituais se sobrepõem. Os primeiros tradutores gregos usaram tanto khrestotes (“amabilidade”) quanto agathone (“bondade”) para traduzir a raiz hebraica tov, que descreve aquilo que é bom, belo, correto e justo.
Khrestotes é um termo mais específico, que se refere à “bondade ativa” direcionada “aos outros”.(2) Deus demonstra sua khrestotes, ou amabilidade, ao oferecer à humanidade a verdadeira vida por meio de Jesus (Ef 2:4–7) e também ao fazer o bem a “pessoas ingratas e más” (Lc 6:35).
Assim, podemos refletir a khrestotes de Deus por meio de atos de amor e generosidade, especialmente para com aqueles que talvez consideremos indignos de recebê-los.
De modo mais amplo, agathone, ou bondade, diz respeito a agir de formas puras e corretas, ou a seguir a Deus, que é verdadeiramente bom (Mc 10:18). Quando Deus cria o universo, ele vê que o mundo é tov, ou bom, a cada etapa da criação (veja Gn 1:4; Gn 1:10; Gn 1:12; Gn 1:18; Gn 1:21; Gn 1:25). Na imaginação bíblica, o fruto espiritual da bondade flui da natureza original da criação de Deus como um todo, especialmente da humanidade. Depois de colocar os seres humanos em sua criação, Deus chama tudo o que fez de tov me’od, que significa “muito bom” (Gn 1:31).
Assim, quando confiamos nas instruções do nosso Criador e as seguimos, cultivamos o fruto espiritual da bondade original de Deus, soprada em toda a criação.
Fidelidade
No Novo Testamento, a palavra grega pistis geralmente se refere a “confiança” ou “fé”, mas também pode significar “fidelidade” (veja Rm 3:3). Para os autores bíblicos, fé e fidelidade são dois lados da mesma moeda, abrangendo ideias como lealdade, confiabilidade, integridade e compromisso.
Ter fé não significa simplesmente acreditar em afirmações sobre Deus ou concordar com elas (veja Tg 2:19). A fé é ativa e requer dependência de Deus, uma confiança tão profunda que nos leva a escolher andar nos caminhos de Deus.
No início, dissemos que os frutos do Espírito descrevem o próprio caráter de Deus, e os autores bíblicos apresentam Deus repetidamente como fiel e fidedigno. A Bíblia nunca retrata Deus como alguém arbitrário, caótico ou movido por paixões inconstantes. Assim, quando recebemos o Espírito de Deus e aprendemos a depender do modo de vida de Deus em vez de nossas paixões inconstantes, também nos tornamos pessoas mais confiáveis e fiéis.
Quando Jesus ora no jardim do Getsêmani, antes de ser morto, ele expressa seu desejo humano legítimo de evitar o sofrimento e a morte. Jesus suplica: “afasta de mim este cálice”, pedindo para ser poupado da dolorosa responsabilidade que está diante dele. E, ainda assim, sua decisão de permanecer fiel é maior do que seu desejo de sobreviver. Por isso, ele conclui sua súplica com um compromisso: “não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22:42).
Jesus escolhe fazer a vontade de Deus, qualquer que seja o custo, e essa talvez seja a imagem mais clara de fidelidade em toda a Bíblia. Quando escolhemos seguir o mesmo caminho de Jesus, submetendo nossa vontade à vontade de Deus pelo poder do Espírito, também cultivamos o fruto espiritual da fidelidade. Assim como Deus foi fiel a nós (1Co 1:9), respondemos com um compromisso fiel com Deus e com os outros.
Mansidão
A palavra grega prautes é traduzida como “mansidão” e envolve agir com ternura ou suavidade, além de ter uma atitude de humildade.(3) Os autores bíblicos frequentemente retratam Deus por meio de imagens de força superior e poder soberano. Porém, eles também usam imagens como a de uma ave-mãe protegendo seus filhotes debaixo das asas para mostrar que, embora Deus seja infinitamente poderoso, sua força também se manifesta no cuidado gentil e terno com seu povo (Sl 91:4; Is 31:5).
Isaías 40:11 mostra a ternura de Deus como um pastor que reúne os cordeiros nos braços, os carrega junto ao coração e conduz com cuidado as ovelhas que amamentam. E, quando o profeta Elias encontra Deus, ele espera que a presença divina se manifeste em um poderoso terremoto ou em um fogo glorioso. Em vez disso, encontra Deus em um suave “sussurro” (1Rs 19:12).
Mais tarde, no Novo Testamento, quando Deus assume carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré, ele não anuncia sua realeza com trombetas ou grande pompa, nem com soldados ou cavalos de guerra. Jesus entra em Jerusalém como um rei “manso” (praus, relacionado a prautes), montado em um jumentinho (Mt 21:5), como havia sido anunciado pelo profeta Zacarias (Zc 9:9).
E, quando Jesus fala às pessoas cansadas e sobrecarregadas sobre a vida com ele, diz: “Venham a mim... e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso (praus) e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso” (Mt 11:28–29, tradução do BibleProject).
Jesus nos lembra que o verdadeiro poder não se revela ao dominar os outros pela força violenta, mas ao cuidar deles e libertá-los, oferecendo descanso pacífico e restaurador por meio da mansidão.
Depois que Jesus parte, o Espírito de Deus continua convidando as pessoas a viver de maneira mansa. O apóstolo Paulo, por exemplo, estabelece um contraste entre visitar a igreja de Corinto “com uma vara” para corrigi-la e ir até ela “com amor e espírito de prautes”, ou mansidão (1Co 4:21). Paulo escolhe a mansidão, pelo menos nesse caso. E, apenas alguns versículos depois de apresentar o fruto do Espírito, Paulo orienta as pessoas a confrontarem aqueles que erram não com força, mas “com espírito de prautes” (Gl 6:1; veja também 2Tm 2:25).
Quando escolhemos caminhos de mansidão, experimentamos e oferecemos aos outros o verdadeiro fruto espiritual que Deus produz em nós.
Domínio próprio
Atletas de alto desempenho demonstram domínio próprio ao evitar coisas atrativas que poderiam prejudicar seu corpo. Embora possam desejar a satisfação de comer biscoitos ou bolo, eles se disciplinam para comer vegetais e proteínas magras. Podem desejar descansar, mas se esforçam para treinar intensamente. Ao exercer controle sobre o próprio corpo, em vez de permitir que seus desejos os controlem, eles se preparam para competir bem.
Paulo incentiva a igreja de Corinto a aplicar esse mesmo tipo de autodisciplina ao buscar os caminhos de Deus (1Co 9:24–27). Exercemos domínio próprio quando nos afastamos daquilo que Paulo chama de “obras da carne”, isto é, tentativas vãs de encontrar realização pessoal ao priorizar nossos próprios desejos e negligenciar as pessoas ao nosso redor (Gl 5:19–21).
Buscar a satisfação dos nossos próprios desejos muitas vezes parece ser o melhor caminho para a liberdade. Mas, sem domínio próprio, acabamos sendo controlados por esses desejos que estão sempre mudando. Jesus e os autores do Novo Testamento entendem que a boa vida é encontrada quando vivemos com amor a Deus e ao próximo em todas as situações. Embora isso possa parecer contraintuitivo, exercer domínio próprio nos dá verdadeira liberdade.
Vivendo pelo Espírito
Deus nos criou à sua própria imagem e, desde o início, tem nos ensinado a refletir seu caráter divino. Fazemos isso ao produzir bons frutos espirituais, vivendo de acordo com o que é certo aos olhos de Deus e cuidando de sua criação e de todos os que fazem parte dela. Quando servimos a nós mesmos e fazemos o que é certo aos nossos próprios olhos, refletimos uma imagem corrompida de Deus. Afinal, Deus não é nem um pouco egocêntrico. Deus é amor puro e sempre age para o bem dos outros.
Como seres humanos, não podemos perder a imagem de Deus, mas muitas vezes acabamos distorcendo-a, permitindo que o fruto espiritual de Deus murche e morra em nós. Trocamos, por engano, a boa vida por algo tão valioso quanto uma maçã apodrecida.
Mas os autores bíblicos nos convidam a confiar que, quando vivemos à maneira de Jesus, que produz todos os frutos espirituais, também participamos da obra do Espírito. Deus renova sua própria imagem em nós (veja 2Co 3:18).
Assim, andar pelo Espírito cria as condições necessárias para que Deus cultive em nós os frutos espirituais do amor, da alegria, da paz, da paciência, da amabilidade, da bondade, da fidelidade, da mansidão e do domínio próprio, frutos preciosos que trazem cura e vida a todos.
Ernest DeWitt Burton, A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Galatians, International Critical Commentary (London: T&T Clark, 1988), 314.
Gordon Fee, God's Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul (Grand Rapids: Baker Academic, 2009), 450.
On humility as a key aspect of this Greek root, see the discussion of the related adjective praus in "The Powerless, Grieving, and Unimportant (The Beatitudes Pt. 2)" podcast.